Ardi desbanca Lucy, mas a Fapesp deveria ser mais cientificamente prudente com o achado

segunda-feira, outubro 05, 2009

Ardi desbanca Lucy

Esqueleto de fêmea de 4,4 milhões de anos se torna o registro fóssil mais antigo e bem preservado de um ancestral do homem

Edição Online - 02/10/2009

Lucy ganhou uma "irmã" bem mais velha e diferente. Num conjunto de 11 artigos científicos, produzidos por 47 pesquisadores de 10 países, a capa da revista científica norte-americana Science de hoje (02/10) destaca a descoberta do mais antigo e bem preservado esqueleto de um hominídeo: uma fêmea da espécie Ardipithecus ramidus, apelidada de Ardi, que viveu há 4,4 milhões anos nos então bosques (hoje savanas) de Aramis, na Etiópia. Apesar de de ser 1,2 milhão de anos mais velha do que Lucy (nome informal do mais famoso esqueleto de hominídeo conhecido até agora, uma fêmea da espécie Australopithecus afarensis, descoberta em 1974 também na Etiópia), Ardi já conseguia ficar em pé e andar, mesmo que de forma mais primitiva, com dificuldades por causa dos pés achatados. Mas ainda não tinha abandonado o hábito de subir em árvores.


Ilustração de hominídeo da espécie Ardipithecus ramidus: bípede, mas dificuldades

"Ardi não era uma chimpanzé, mas também não era humana", diz Tim White, diretor do Centro de Pesquisa Em Evolução Humana da Universidade da Califórnia em Berkeley, um dos autores dos estudos. "É o retrato mais detalhado que temos de um dos mais antigos hominídeos e do que era a África 4,4 milhões anos atrás." Com 1,2 metro de altura e 50 quilos (Lucy tinha 1,10 metro e 29 quilos) e um cérebro de tamanho semelhante ao de um chimpanzé moderno, ela ainda não estava totalmente adaptada à vida no chão. Podia ser bípede, mas não podia andar ou correr longar distâncias. Era provavelmente omnívoro. Segundo os cientistas, o A. ramidus, cujo nome científico significa "raiz dos macacos do chão", não guarda semelhança com nenhuma espécie viva de macacos e indica que, durante o processo evolutivo, os ancestrais do homem podem não ter passado necessariamente por uma fase em que se pareceram muito com os chimpanzés.

Os ossos fossilizados de Ardi foram encontrados em 1992 na região de Aramis, num local distante cerca de 70 quilômetros de onde fora resgatado o esqueleto de Lucy. Foram estudados por 17 anos antes de virem a público. Ali também foram descobertos resquícios de mais 35 hominídeos do gênero Ardipithecus e 150 mil exemplares da flora e da fauna que habitaram o lugar há mais de 4 milhões de anos. Homínideos mais antigos do que Ardi já foram localizados em outros países da África, como o Orrorin tugenensis no Quênia (6 milhões de anos) e Sahelanthropus tchadensis no Chad (7 milhões de anos), mas de nenhum deles há esqueletos tão completos como o da nova descoberta.

+++++

NOTA IMPERTINENTE DESTE BLOGGER:

O editor de uma revista do porte da revista Pesquisa, da Fapesp, deve saber: a área de paleoantropologia é uma área 'viciada' onde reina muita subjetividade e desejo de ganhar fama para quem descobrir o tal de 'elo perdido'. Somente isso recomendaria ao editor mais prudência e ceticismo saudável, além do fato de opiniões científicas contrárias não terem sido mencionadas na pequena nota.

A revista Pesquisa da Fapesp foi imprudente em noticiar esta descoberta. São várias as razões e elas podem ser encontradas aqui no blog de John Hawks, um antropólogo evolucionista, e professor na Universidade de Michigan:

1. Ardipithecus FAQ

2. Unpersuaded [Não convencidos]

3. Losers of the day

4. "Discovering Ardi"

5. Ardi woes

6. Dr. Zaius, Dr. Zaius

7. Whoa, who stole the data?

8. Ardipithecus proportions