Catch-22: editorial da Folha de São Paulo entre a cruz e a espada epistêmica

segunda-feira, abril 05, 2010

O editorial “Entre Deus e Darwin” da Folha de São Paulo publicado em 02/04/10 [acesso integral para assinantes da FSP e do UOL] sobre recente Pesquisa Datafolha revelando que 59% (a maioria) dos brasileiros ‘endossam’ um credo religioso-epistêmico do crioulo doido tupiniquim: “a aceitação do processo darwiniano com a fé na condução e supervisão divina, situadas num plano superior ao da natureza” é para ser lido cum grano salis. A pesquisa mostra a criatividade do bom malandro brasileiro: conseguiu misturar água com óleo, e diminuiu Deus em sua onipotência criativa e Darwin em sua onisciência científica que o editorial louvou como sendo “discernimento intuitivo de que questões de ciência não competem com convicção religiosa”.

Povo sábio e pragmático este de Pindorama: uma vela para Deus e outra para o Diabo, oops para Darwin. É melhor se garantir: vai que Deus não existe e Darwin está certo? Ou que Deus existe, mas, contrariando a Darwin, consegue ‘dirigir’ este processo evolutivo’? O agravante aqui do credo religioso-epistêmico tupiniquim é que Darwin disse que se a sua teoria da evolução através da seleção natural precissasse de ‘ajuda externa’[leia-se Deus] seria ‘bulshit’. Traduzindo em graúdos do inglês para o tupi — titica de galinha!

Será que o povo sábio e pragmático de Pindorama sabe disso? Duvido. Pouca gente letrada, até com Ph. D. sabe disso. Os que sabem, especialmente historiadores de ciencia, ficam em silêncio pétreo: é crime de lésè majesté criticar Darwin na Nomenklatura científica. Pecado mortal acadêmico. Inquisição sem fogueiras. Sei do que estou falando. Já passei por isso.

Interessante o editorial citar a resposta irônica que J. B. S. Haldane (1892-1964), biólogo ateu e comunista, deu à pergunta sobre o que a teoria da seleção natural revelava sobre os desígnios de Deus: “Uma apaixonada predileção por besouros.” Como, cientificamene, Haldane teve acesso ao gosto estético do Eterno? Ele tinha acesso via DDD [Discagem Direta a D's]? Haldane não disse. Nem a pergunta, tampouco a resposta são científicas. Por quê? Questões metafísicas estão fora do pálio científico, lembra-se?

A Nomenklatura científica e a editoria de ciência da FSP sabem que existe uma relação de custo e benefício na ação da seleção natural nas coisas bióticas, e que nenhuma teoria evolutiva que se preze pode desconsiderar. É o chamado ‘dilema de Haldane’ que o editorial da FSP, talvez por razões de espaço, ou intencionalmente deixou de fora. Esta é uma questão científica que a Nomenklatura científica ainda não respondeu a contento, e prefere que muitos (até biólogos) desconheçam. Pro bono scientia, leia aqui o artigo original de Haldane e a ‘revisitação’ do dilema de Haldane.

Segundo a Pesquisa Datafolha, somente 8% dos brasileiros (a raça dos darwinistas ‘puros’) endossariam Haldane: “os seres vivos são produto de lentíssima evolução na qual variações fortuitas, mas vantajosas à sobrevivência e reprodução, se disseminam e acabam por dar origem a novas espécies, mais adaptadas a seu ambiente.” Ora, a evolução é tanto um processo lento e gradual ao longo de milhões de anos, bem como rápido — vapt, vupt evolução ocorrendo diante de nossos olhos. Um verdadeiro smorgasbord epistêmico. Self-service.

Embora eu tenha sido um péssimo aluno em matemática, eu fiquei sem entender porque é expressiva a parcela de 25% dos brasileiros. E aqui eu abro um parêntese e vou ser o advogado do Diabo dos criacionistas. A parcela é ‘expressiva’, embora identifique uma minoria, é porque ela descreve pessoas que ‘se mostram criacionistas, pois acreditam que os seres vivos tenham sido concebidos e materializados por Deus num único ato criativo.’ Eu penso que aqui, o ranço naturalista (posição subjetiva) falou mais alto do que a razão matemática.

Embora nos EUA estejam ‘enraizadas facções do cristianismo evangélico’ literalistas, e ‘os criacionistas são estimados em 45%’, o editorial da FSP afirmou não haver surpresa que naquele país somente ‘as implicações filosóficas e religiosas do darwinismo alcancem estridente controvérsia’, com ‘disputas judiciais renhidas a fim de preservar o ensino laico de contaminações religiosas’. E as razões seculares criticando a Darwin, não contam? Já adianto logo para a editoria jurídica da FSP: não existe nenhuma decisão da Suprema Corte Americana proibindo o ensino das evidências a favor e contra a teoria da evolução por razões estritamente seculares.

A versão atual da teoria da evolução de Darwin, o neodarwinismo, oops, Claudio Angelo prefere Síntese Evolutiva Moderna, foi considerada uma teoria morta po ninguém nada menos do que Stephen Jay Gould (mencionado cripticamente no fim do editorial) em artigo publicado em1980.

A FSP sabe, mas não repassa para seus leitores: nos Estados Unidos os cidadãos podem sim questionar nos Conselhos Educacionais e até na justiça aspectos educacionais, y otras cositas mais. Querer o ensino unilateral da teoria da evolução através da seleção natural sem críticas, quando já falamos na revisão teórica do darwinismo, é inaceitável em pleno século 21.

A pesquisa Datafolha no Brasil trouxe resultados parecidos com pesquisas realizadas na Europa com cenário variado: na Itália, Irlanda e Polônia, o índice de criacionistas se aproxima do brasileiro, sugerindo que, segundo o editorial da FSP, ‘nas nações de maioria católica essa questão não é relevante, talvez nem pertinente’porque ‘os católicos sempre estiveram à vontade com interpretações figuradas do evangelho’. É vero, mas pode ser o contrário. Especialmente levando-se em conta uma Europa completamente secularizada, mesmo nesses países de ‘maioria católica’como o Brasil.

Quando abordou o resultado da maioria dos brasileiros (59%) combinar a aceitação do processo evolutivo darwiniano com a fé na condução e supervisão divina, situadas num plano superior ao da natureza, o editorial da FSP, a la Macunaíma, afirmou que pode parecer inverossímil aos olhos dos ateus, mas essa conciliação de crenças não é absurda porque sugere nos evolucionistas teístas ‘um discernimento intuitivo de que questões de ciência não competem com questões de convicção religiosa’, pois `são campos que correspondem a dimensões diferentes da consciência humana’.

Gravura de Benett - Tubo de Ensaio


Ué, assopra e morde agora com o NOMA [Non-overlapping Magisteria, magistérios não sobrepostos] de Gould? Traduzindo em graúdos: ‘ado, ado, ado, cada um no seu quadrado!’

Para consolo da Nomenklatura científica, ‘o darwinismo dito "puro" tende a crescer conforme aumenta a educação formal’, mas aqui cabe a pergunta causticante deste blogger: Educação formal ou doutrinação formal? Se Darwin é ensinado acriticamente, não causa nenhuma surpresa que os que foram assim ‘doutrinados’ desde o ensino fundamental até à universidade reflitam esse darwinismo ‘puro’. Será que se as evidências a favor e contra a evolução fizesse parte da abordagem nos livros didáticos de Biologia e nas aulas de ciência, o darwinismo ainda seria assim tão ‘puro’? Duvido, e a Nomenklatura científica treme na base e perde o sono só de pensar nesta possibilidade maquiavélica contra o homem que teve a maior ideia que toda a humanidade já teve.

Correndo o risco de ter uma ‘fatwa’ emitida contra si, o editor contrastou os índices mais altos de darwinismo ‘puro’ na Europa (países escandinavos) com a Turquia (mais da metade da população criacionista) supondo que nos ‘países de predomínio islâmico essa marca se repita ou seja suplantada, pois o Islã tende a adotar uma visão mágica e literal do advento do homem na Terra’. Sugiro ao editor procurar asilo rapidamente em algum país escandinavo!

No final, o editorial da FSP, fiel e infiel na sua relação incestuosa com a Nomenklatura científica, enveredou para a defesa do ‘discurso único’ sobre a teoria da evolução e do credo religioso-epistêmico do crioulo doido tupiniquim: ‘O levantamento Datafolha desencoraja certa tendência a importar uma polêmica que pode fazer sentido nos EUA, mas que não se sustenta em nossa realidade cultural.’ Razão? O desafio brasileiro de ‘reunir a rua e a casa, a lei e a família, o sobrenatural e o prosaico’, identificado há algumas décadas pelo antropólogo Roberto Da Matta, parece que na questão religião e darwinismo, ‘esse sincretismo à brasileira já vigora.’

Que o sincretismo a la Macunaíma já vigora no Brasil não se discute. O que é discutível e deplorável no editorial da FSP é a sugestão de que os dados ‘desencoraja certa tendência a importar uma polêmica que pode fazer sentido nos EUA, mas que não se sustenta em nossa realidade cultural.’ Nada mais completamente falso. Tanto nos EUA como no Brasil, esta polêmica tem tudo a ver com a ciência, apesar do ‘ruído religioso’. Se existem críticos religiosos de Darwin, muitos deles encontraram e encontram essas críticas e argumentos em pesquisas e artigos de cientistas que afirmaram e afirmam desde 1859 que Darwin não fecha as contas em um contexto de justificação teórica, que a teoria da evolução através da seleção natural é ciência capenga, y otras cositas mais.

Os verdadeiros culpados por isso são os cientistas, pois, felizmente, a ciência é a busca pela verdade, e foram eles que fizeram a ciência da falsificação das hipóteses transformistas de Darwin, que foi encontrado e demonstrado correto e errado: acertou no varejo (microevolução) e errou no atacado (macroevolução). Não querer que este debate público prospere e ocorra no Brasil é estranho. Mui estranho...

Ah, será que a Pesquisa Datafolha e o editorial da FSP foram 'factoides' criados para esvaziar o III Simpósio Internacional “Darwinismo Hoje” na Universidade Presbiteriana Mackenzie agora em abril? Não, mil vezes não. É muita 'teoria de conspiração', mas vai que é vero? Como historiador de ciência em formação, eu não me esqueço do modus operandi do X Club, de Huxley, Hooker et al...