Exposição apresenta a primeira reconstrução de dinossauro carnívoro de grande porte feita no país
Reconstrução do Angaturama limai com um pterossauro na boca, feita com base em 60% do esqueleto do dinossauro, que media cerca de seis metros de comprimento (foto: Roosevelt Motta).
Para os amantes de répteis pré-históricos, está em exibição no Rio de Janeiro a primeira reconstrução de um dinossauro carnívoro de grande porte feita no Brasil. O gigante, chamado Angaturama limai, tem seis metros de comprimento e viveu há 110 milhões de anos na Chapada do Araripe, no Ceará. A reconstrução do animal faz parte da exposição Dinossauros no Sertão, montada pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O dinossauro havia sido descrito em 1996 pelos paleontólogos do Museu Nacional Diogenes Campos e Alexander Kellner – que também é colunista da CH On-line. Em seu trabalho, entretanto, os pesquisadores utilizaram somente uma parte do crânio do dinossauro, que representava apenas 10% do seu esqueleto.
A reconstrução apresentada agora se baseia em 60% do esqueleto original do A. limai. Além do crânio, foram usados a pélvis, partes de coluna cervical e ossos dos membros inferiores e superiores do animal.
A preparação dessas partes do esqueleto do A. limai ficou a cargo da paleontóloga Elaine Machado, que está estudando o material em seu mestrado, sob a orientação de Kellner. Os fósseis, segundo ela, estavam no Museu Nacional desde 1995, mas a dificuldade de prepará-los para estudo deixou-os ‘na gaveta’ até o ano passado. “O exemplar que reconstruímos é um dos mais completos do mundo do grupo dos espinossauros”, ressalta Machado.
Representação artística do A. limai em vida, junto com outros animais que viveram na Chapada do Araripe (Ceará) há 110 milhões de anos. Além de peixes, o dinossauro alimentava-se também de pterossauros (arte: Maurílio Oliveira / Museu Nacional - UFRJ).
Dinossauro brasileiro e africano Os espinossauros são dinossauros que viveram no período Cretáceo (entre 144 e 65 milhões de anos atrás) no Brasil e na África. Eles se caracterizavam pelo crânio alongado, pelos dentes finos e circulares e por uma espécie de crista ao longo da coluna vertebral.
Segundo Machado, a dentição do A. limai parece com a de um crocodilo moderno, o que fez os pesquisadores deduzirem que o réptil se alimentava de peixes. No entanto, mais tarde foi encontrado um dente do dinossauro junto com fósseis de pterossauro. “Isso indica que ele também se alimentava de outros animais”, completa. Por causa dessa descoberta, a reconstrução exposta no Museu Nacional representa o A. limai com um pterossauro na boca.
Além da reconstrução do A. limai, a exposição Dinossauros no Sertão apresenta réplicas de outros répteis pré-históricos encontrados na Chapada do Araripe, como o pterossauro Tupandactylus imperator, que viveu há 115 milhões de anos.
“A reconstrução do Angaturama é um grande passo no estudo dos espinossauros de maneira geral”, afirma Machado. “Ela também ajuda na compreensão da relação entre as faunas do Brasil e da África, uma vez que foram encontrados exemplares desse réptil nos dois continentes.”
A exposição Dinossauros no Sertão, inaugurada no dia 14 deste mês, apresenta, além da reconstrução do A. limai, réplicas de outros répteis cujos fósseis também foram encontrados na Chapada do Araripe. Segundo Machado, o Araripe era uma laguna, e o solo salgado é um dos responsáveis pela excelente capacidade de preservação de esqueletos do lugar.
Dinossauros no Sertão está em exibição no Museu Nacional da UFRJ, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão (RJ). A entrada custa R$ 3 e é gratuita para crianças até cinco anos e para pessoas com mais de 60 anos. Crianças entre seis e dez anos pagam R$ 1.
Eu visitei este sítio arqueológico na Chapada do Araripe, Ceará, em 2008. Se não me engano, a região está bem elevada em relação a Fortaleza. Os cânions são maravilhosos e extensos. Se aquilo já foi um imenso MAR um dia, para onde foi toda a água???
Darwin in the 21st Century: Nature, Humanity, and God
The John J. Reilly Center for Science, Technology, and Values and the Science, Theology and the Ontological Quest project present
Darwin in the 21st Century: Nature, Humanity, and God
November 1–3, 2009 University of Notre Dame Center for Continuing Education, McKenna Hall Notre Dame, Indiana, USA
This international conference is devoted to evolutionary theory in its scientific, anthropological, philosophical, and theological dimensions as a contribution to the 150th anniversary of the publication of the Origin of Species. Download conference postcard (PDF).
Featured Speakers
Gennaro Auletta, Gregorian University, Rome
Francisco Ayala, University of California, Irvine
William Carroll, Blackfriars, Oxford University
Celia Deane-Drummond, University of Chester
Jean Gayon, University of Paris
Paul Griffiths, University of Sydney
Kenneth Miller, Brown University
Alessandro Minelli, University of Padua
Sandra Mitchell, University of Pittsburgh
Simon Conway Morris, Cambridge University
Robert Richards, University of Chicago
Bernard Wood, George Washington University
Archbishop Jozef Zycinski, University of Lublin, Poland
Conference Goals
examine the present state of theoretical discussion of evolutionary theory within the biological sciences reflect on the future directions of evolutionary theory through interdisciplinary discussions by scientists, social scientists, philosophers of science, and theologians explore issues at the intersection of evolutionary theory for our understanding of human nature develop interdisciplinary dialogue involving theology, philosophy, and evolutionary biology to form new perspectives on evolutionary science, Christian humanism, and the theology of creation.
Call for Papers
20 minute contributed papers on topics of relevance to the conference themes will be accepted for simultaneous sessions on November 2 and 3. Abstracts of 200 words and brief C.V.s are due by June 12, with notification of acceptance by June 19. Abstracts and proposals should be emailed to nd.reilly.31@nd.edu.
Event Sponsors
John J. Reilly Center for Science, Technology, and Values Science, Theology and the Ontological Quest Project University of Notre Dame’s College of Arts and Letters University of Notre Dame’s Institute for Scholarship in the Liberal Arts Interdisciplinary Program in Global Linkages of Biology, the Environment, and Society For more information, call the University of Notre Dame’s Reilly Center at 574.631.5015 or email the center at reilly@nd.edu.
http://www.youtube.com/watch?v=rUAv-AF732A Esta música de Estrella Morente é a minha preferida. Pena que não permitiram a inserção do vídeo. Clique no link para ouvir esta música muy hermosa!
Para Yael Sharon, mi hija: cuando Estrella Morente canta esta música, eu vejo usted con toda tu alegría de vivir!.
Evolutionary selection between alternative modes of gene regulation
Ulrich Gerlanda,1 and Terence Hwab,1
+Author Affiliations
aInstitute for Theoretical Physics, Arnold Sommerfeld Center for Theoretical Physics, Theresienstrasse 37, 80333 Munich, Germany; and
bCenter for Theoretical Biological Physics and Department of Physics, University of California at San Diego, La Jolla, CA 92093-0374
Edited by Curtis G. Callan, Jr., Princeton University, Princeton, NJ, and approved April 2, 2009 (received for review August 27, 2008)
Abstract
Microorganisms employ a wealth of gene regulatory mechanisms to adjust their growth programs to variations in the environment. It was pointed out long ago [Savageau M (1977) Proc Natl Acad Sci USA 74: 5647–5651] that the particular mode of gene regulation employed may be correlated with the “demand” on the regulated gene, i.e., how frequently the gene product is needed in its natural habitat. An evolutionary “use-it-or-lose-it” principle was proposed to govern the choice of gene regulatory strategies. Here, we examine quantitatively the forces selecting for and against two opposing modes of gene regulation, in the context of an evolutionary model that takes genetic drift, mutation, and time-dependent selection into account. We consider the effect of time-dependent selection, with periods of strong selection alternating with periods of neutral evolution. Using a variety of analytical methods, we find the effective population size and the typical time scale of environmental variations to be key parameters determining the fitness advantage of the different modes of regulation. Our results support Savageau's use-it-or-lose-it principle for small populations with long time scales of environmental variations and support a complementary “wear-and-tear” principle for the opposite situation.
transcription control design principles molecular evolution time-dependent selection
Footnotes
1To whom correspondence should be addressed. E-mail: gerland@lmu.de or hwa@ucsd.edu
Author contributions: U.G. and T.H. designed research, performed research, and wrote the paper.
Tracing the impact of the Andean uplift on Neotropical plant evolution
Alexandre Antonellia,1,2, Johan A. A. Nylanderb, Claes Perssona and Isabel Sanmartínc,2
+Author Affiliations
aDepartment of Plant and Environmental Sciences, University of Gothenburg, Box 461, 405 30 Gothenburg, Sweden;
bDepartment of Botany, Stockholm University, 106591 Stockholm, Sweden; and
cDepartment of Biodiversity and Conservation, Real Jardín Botánico, Consejo Superior de Investigaciones Cientificas, Plaza de Murillo 2, 28014 Madrid, Spain
Edited by Bruce H. Tiffney, University of California, and accepted by the Editorial Board April 13, 2009 (received for review November 11, 2008)
Abstract
Recent phylogenetic studies have revealed the major role played by the uplift of the Andes in the extraordinary diversification of the Neotropical flora. These studies, however, have typically considered the Andean uplift as a single, time-limited event fostering the evolution of highland elements. This contrasts with geological reconstructions indicating that the uplift occurred in discrete periods from west to east and that it affected different regions at different times. We introduce an approach for integrating Andean tectonics with biogeographic reconstructions of Neotropical plants, using the coffee family (Rubiaceae) as a model group. The distribution of this family spans highland and montane habitats as well as tropical lowlands of Central and South America, thus offering a unique opportunity to study the influence of the Andean uplift on the entire Neotropical flora. Our results suggest that the Rubiaceae originated in the Paleotropics and used the boreotropical connection to reach South America. The biogeographic patterns found corroborate the existence of a long-lasting dispersal barrier between the Northern and Central Andes, the “Western Andean Portal.” The uplift of the Eastern Cordillera ended this barrier, allowing dispersal of boreotropical lineages to the South, but gave rise to a huge wetland system (“Lake Pebas”) in western Amazonia that prevented in situ speciation and floristic dispersal between the Andes and Amazonia for at least 6 million years. Here, we provide evidence of these events in plants.
biogeography Neotropical biodiversity Rubiaceae
Footnotes
2To whom correspondence may be addressed. E-mail: isanmartin@rjb.csic.es or alexandre.antonelli@systbot.uzh.ch
Author contributions: A.A. and I.S. designed research; A.A. and C.P. performed research; J.A.A.N. and I.S. contributed new reagents/analytic tools; A.A., J.A.A.N., and I.S. analyzed data; and A.A. and I.S. wrote the paper.
↵1Present address: Institute of Systematic Botany, University of Zurich, Zollikerstrasse 107,CH 8008, Zurich, Switzerland.
The authors declare no conflict of interest.
This article is a PNAS Direct Submission. B.H.T. is a guest editor invited by the Editorial Board.
Freely available online through the PNAS open access option.
International Commission on Zoological Nomenclature
INTERNATIONAL CODE OF ZOOLOGICAL NOMENCLATURE online
Fourth Edition - Adopted by the International Union of Biological Sciences The provisions of this Code supersede those of the previous editions with effect from 1 January 2000.
Agência FAPESP – A galáxia M 94, na constelação dos Cães Caçadores, há décadas instiga a curiosidade de astrônomos e astrofísicos. A região central da galáxia emite uma luz diferente da produzida pelas estrelas, mas muito intensa.
Programa Pesquisa Brasil do próximo fim de semana destaca comprovação da existência de buraco negro na galáxia M 94 feita por grupo brasileiro (Sloan Digital Survey)
Esse tipo de brilho costuma indicar a presença de um gigantesco buraco negro, mas até agora não havia sido encontrada a menor evidência dessa existência. Depois de quase três anos analisando imagens obtidas com um dos maiores telescópios ópticos em terra – o Gemini Norte, instalado nas montanhas de Mauna Kea, no Havaí –, o astrofísico brasileiro João Steiner finalmente obteve provas inequívocas de que a M 94 abriga de fato um buraco negro voraz, um dos mais próximos do Sistema Solar.
Em entrevista ao programa de rádio Pesquisa Brasil do próximo fim de semana, Steiner, professor titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Astrofísica, detalha o método inovador que sua equipe usou para encontrar evidências do buraco negro.
Outro destaque do programa será uma entrevista com Odo Primavesi, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, que falará sobre alternativas para a alimentação bovina que diminuam a emissão de gases causadores do esfeito estufa, como dióxido de carbono e metano.
O Pesquisa Brasil vai ao ar no sábado às 11h da manhã e às 20h e no domingo, às 8h da manhã, pela rádio Eldorado AM (700 KHz) ou pelo site www.territorioeldorado.com.br.
O ouvinte pode participar enviando perguntas e sugestões pelo e-mail pesquisabrasil@fapesp.br. Questões respondidas durante o programa resultarão em prêmios aos autores.
Agência FAPESP – Para os cientistas que estudam o vizinho da Terra, não há mais dúvidas de que Marte teve, em um passado distante, água fluindo por sua superfície. As evidências são cada vez mais claras, como a apresentada por um estudo publicado na edição desta sexta-feira (22/5) da revista Science.
Por meio de dados colhidos pelo jipe robotizado Opportunity na cratera Vitória, próxima ao equador marciano, um grupo internacional de pesquisadores identificou uma região inteira no planeta que foi formada pela água.
Segundo o estudo, o padrão de camadas sedimentares na cratera é característico da formação pela ação da água e é semelhante ao encontrado em outras crateras a cerca de 6 quilômetros ao norte. Isso implicaria que a água ajudou a formar toda a região que envolve as crateras.
Steven Squyres, do Departamento de Astronomia da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e colegas analisaram as paredes da cratera Vitória, que tem cerca de 750 metros de diâmetro e 75 metros de profundidade, e caracterizaram o impacto do asteroide que a criou.
De acordo com os pesquisadores, as camadas nas paredes da cratera apontam evidências de antigas dunas, algumas das quais seriam comparáveis em escala com as depositadas no oeste dos Estados Unidos entre 200 milhões e 146 milhões de anos atrás, durante o período Jurássico.
Para os autores do estudo, a principal constatação é que o mesmo fluxo de água que formou as crateras ao norte também foi responsável pela cratera Vitória. Ou seja, a água cobriu toda uma extensa área, não apenas partes dela.
O artigo An entire region of Mars, shaped by water, de Steven Squyres e outros, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.
NOTA DESTE BLOGGER:
Professores, pesquisadores e alunos em universidades públicas e privadas, com acesso ao site CAPES/Periódicos, podem ler gratuitamente a Science bem como outras publicações científicas.
Agência FAPESP – Durante quatro anos, 23 historiadores de dez instituições de pesquisa, além de grande número de bolsistas e colaboradores estrangeiros, dedicaram-se a investigar, sob múltiplas perspectivas, o processo que levou a América portuguesa a se transformar em um novo Estado e em uma nação com identidade própria.
Projeto Temático coordenado por István Jancsó, do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, mostra que nação brasileira não surgiu com a fundação do Estado, mas com a composição de um mosaico de identidades e projetos em pleno contexto de crise
A tarefa não é simples, tendo em vista a complexidade do contexto de crise de superação do antigo regime português na América, segundo o historiador István Jancsó, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP), que coordena o Projeto Temático “Fundação do Estado e da nação brasileiros (1780-1850)”, apoiado pela FAPESP.
De acordo com Jancsó, os estudos destruíram uma série de mitos, como o de que a nação brasileira teria surgido, em um passe de mágica, a partir da ruptura com Portugal e da formalização de um novo Estado, legitimado por uma suposta identidade “brasileira” que teria existido entre os colonos nos séculos que antecederam a emancipação política.
A hipótese central da investigação, desenvolvida pelos pesquisadores com foco em inúmeros recortes historiográficos, é que “a idéia correntemente aceita de o Estado ser o demiurgo da nação não dá conta da complexidade do fenômeno que pretende sintetizar”, disse.
Para ele, o estudo do período mostra que o Estado brasileiro emerge em meio à coexistência, no interior do que fora antes a América portuguesa, “de múltiplos projetos políticos, cada qual sintetizando trajetórias coletivas que balizavam alternativas dessemelhantes de futuro”.
Os estudos, iniciados em 2004, tiveram base em pesquisas, análises e debates realizados pelo grupo de historiadores pelo menos desde 1994. Esses estudos tiveram uma primeira sistematização no artigo Peças de um mosaico (apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira), publicado por Jancsó e João Paulo Garrido Pimenta, em 2000.
O processo ganhou densidade a partir de um seminário internacional realizado em São Paulo em setembro de 2001, que gerou o livro Brasil: a formação do Estado e da nação (1780-1850), de Jancsó, publicado em 2003.
O Projeto Temático coordenado pelo professor gerou 22 livros, seminários, diversas teses e dissertações, além da revista Almanack Braziliense, que aglutina a contribuição à historiografia brasileira que é feita continuamente por estudiosos envolvidos com os estudos do tema.
Durante o desenvolvimento das pesquisas, os historiadores envolvidos no projeto propuseram uma plataforma analítica original: investigar o período com foco nas conexões entre os conceitos de “identidade” e “crise”. Leia a seguir trechos da entrevista concedida por Jancsó à Agência FAPESP:
Agência FAPESP – O Projeto Temático que o senhor coordena engloba uma ampla gama de estudos sobre a fundação do Brasil enquanto Estado e nação. Há um eixo central que perpassa toda essa produção acadêmica? István Jancsó – Quando começamos a discutir essas questões, nos chamou a atenção a extrema atualidade do período histórico que abordamos. Dois eixos específicos, embora ninguém falasse disso na época, eram de uma atualidade até mesmo angustiante: a importância da questão da identidade nacional e a absoluta centralidade do conceito de crise. Esses foram dois grandes vetores dos estudos. Eu diria que a macroquestão é: como se dá, em um período fundamental da formação da nação brasileira, a reorganização da tessitura do todo e das partes.
Agência FAPESP – Por que o conceito de crise é considerado tão central? Jancsó – Estamos falando da crise do antigo regime como processo geral e, no interior disso, a crise do antigo sistema colonial, que representa aspectos distintos. É uma crise una e múltipla ao mesmo tempo. Não partimos da ideia de que existe uma crise apreensível em sua unidade, a não ser por meio da compreensão de suas múltiplas manifestações. Um dos aspectos que tornam o conceito de crise fecundo nesse estudo é o aspecto da indeterminação que está em qualquer crise. Os historiadores sabem que estão lidando com processos vividos por pessoas que não sabiam o que iria acontecer como hoje nós sabemos. Então, aquela gente que vivia na América portuguesa entre 1810 e 1820 sabia que a monarquia portuguesa, o Estado dentro do qual eles viviam, já não funcionava tão bem quanto antes. Por isso o conceito de crise é um poderoso instrumento de análise.
Agência FAPESP – Quando se pode dizer que um sistema está em crise? Jancsó – É simples: quando aquilo que funcionava deixa de funcionar. Hoje as pessoas leem menos jornal do que há dez anos. Isso significa que podemos pensar em algo como uma crise de um certo tipo de comunicação. Vale dizer que vivemos um processo de reformulação dos padrões de acesso à informação, ou que coloca algumas soluções tradicionais em questão. E ainda não sabemos qual vai ser o novo sistema, porque isso ainda está sendo elaborado.
Agência FAPESP – Por isso o período histórico em questão é tão atual? Estamos em um momento de crise e indefinição? Jancsó – Sim e não se trata apenas de uma crise da comunicação. Mas também das relações familiares, das relações políticas, das tecnologias de produção e assim por diante. É algo sistêmico, mas cada um só enxerga o seu particular e esquece que tudo isso é parte de um sistema no qual cada fenômeno particular é parte de um movimento de uma totalidade.
Agência FAPESP – As reações às crises seguem algum padrão específico que permita compará-las em diferentes contextos e períodos? Jancsó – Em toda situação de crise existem três reações básicas que são bastante generalizadas. A primeira delas é a resposta reacionária: “isso está atrapalhando minha vida e quero que volte a ser como antes”. Uma segunda reação é a perspectiva revolucionária: “as coisas não estão funcionando porque os sistemas estão caducos, temos que eliminar tudo o que existia antes e refazer tudo do começo”. A terceira é uma posição intermediária que se caracteriza pela tentativa de ajustar o movimento a algum equilíbrio, por mais precário que seja. Porque os homens – mesmo os que fazem uma revolução – pensam sempre em função da criação de alguma ordem na vida social.
Agência FAPESP – Naquele contexto de crise, como se comportavam os habitantes da América portuguesa em relação à identidade nacional? Jancsó – Quando nos perguntamos como a América portuguesa virou Brasil, no fundo estamos perguntando como aquela gente que dizia “sou português da América” de repente passa a dizer “sou brasileiro”? E como aquele que diz “sou português da América, de São Paulo – portanto, sou paulista, uma maneira de ser português” passa a dizer “sou brasileiro de São Paulo, portanto sou um paulista”? Em 1810 tudo isso se passava ao mesmo tempo. Estava tudo em aberto, o que é uma característica da crise. No contexto de indeterminação, havia uma multiplicidade de projetos políticos. Cada um se referia a alguma realidade que, no contexto da crise do antigo regime, trazia em si potencialidades de tipo nacional.
Agência FAPESP – Mas até o fim desse período crítico não se podia falar em nacionalidade brasileira? Jancsó – Vejamos, por exemplo, o que ocorreu na época da revolução liberal em Portugal, em 1820, quando os portugueses resolveram superar o absolutismo. Chamaram os deputados brasileiros para participar da regeneração da constituição portuguesa. Logo ficou claro que os interesses eram demasiadamente diferentes para permitir que se chegasse a um acordo e alguns dos brasileiros fugiram para a Inglaterra para não assinar a Constituição, que consideravam contrária aos interesses do Brasil. Fizeram um manifesto à nação – à nação portuguesa, porque eles eram portugueses da América tratando da Constituição da nação portuguesa. Então, dizer que existia uma nação brasileira era algo muito complicado.
Agência FAPESP – A independência teve então sentidos diversos para os diferentes atores? Jancsó – É curioso que muitos portugueses ainda hoje juram que a independência foi coisa de gente reacionária que não queria o liberalismo em avanço. Para eles, os que trabalharam pela ruptura eram algo como a “direita” da corte. A independência brasileira foi um ato entendido pelos portugueses como contrarrevolução: um ato contra os que queriam o fim do absolutismo.
Agência FAPESP – Dentro do Brasil o processo de formação da nação também era encarado de formas diferentes nas várias regiões, adquirindo sentidos diferentes? Jancsó – A professora Wilma Peres Costa [da Universidade Federal de São Paulo, uma das principais pesquisadoras do Projeto Temático coordenado por Jancsó] está trabalhando com a questão da fiscalidade e da circulação de recursos públicos durante o período de formação do Estado. Os estudos estão mostrando que o sistema entrou em colapso com a vinda da Família Real em 1808, porque antes cada capitania estava ligada ao erário régio em Lisboa e a partir dali criou-se um erário régio no Rio de Janeiro. Como dizer aos pernambucanos que, em vez de mandar os recursos para Lisboa, deviam mandar para o Rio de Janeiro? Ora, ninguém questionou o envio de dinheiro brasileiro para reconstruir Lisboa na metade do século 18. Mas os habitantes do Recife não se conformavam em ter que pagar para transformar o Rio de Janeiro em uma cidade melhor do que a deles.
Agência FAPESP – Qual foi a consequência de descartar a ideia de que o surgimento da nação brasileira foi resultado da criação do Estado? Jancsó – O conjunto das análises implodiu a matriz nacional da historiografia, não tomando como dado que a nação é um pedaço inteiriço que se descola de uma metrópole, mas que é todo um caleidoscópio de movimentos que vai configurar um novo mosaico. Pensando assim, temos a possibilidade de romper as fronteiras imperiais e pensar no plano dos dois impérios – Espanha e América espanhola e Portugal e América portuguesa. Confrontamos assim outro mito da historiografia, que o processo aqui foi o oposto do que ocorreu na América espanhola.
Agência FAPESP – O processo de ruptura teve semelhanças? Jancsó – Há uma sincronia surpreendente entre as partes desse mosaico. Os bolivarianos observavam o que acontecia em Pernambuco, enquanto os portugueses acompanhavam o que ocorria na Venezuela e assim por diante. Pela circulação de pessoas e narrativas, havia uma sincronia. O movimento do todo se dava na passagem dos restos de um capitalismo de eixo mercantil para aquilo que é engendrado pelo capitalismo industrial. Faz parte disso também a passagem de um colonialismo de recorte antigo para o que depois viria a ser chamado imperialismo. Os impérios coloniais na crise do antigo regime se esfacelaram sincronicamente. Algumas questões, como o destino do tráfico de escravos, perpassam todos esses processos.
Agência FAPESP – E quanto à noção de que a ruptura da América espanhola foi mais violenta? Jancsó – Criaram-se mitos como o do caráter pacífico da transição no Brasil, mas as pessoas esquecem que correu muito sangue por conta da dificuldade em superar as estruturas antigas. Na década de 1830, na Cabanagem, um percentual muito relevante da população da Amazônia foi chacinada – alguns chegam a falar em 30%. Isso é guerra civil. A Balaiada, no Maranhão, também foi uma guerra civil. A Farroupilha matou menos gente, mas foi duradoura. O que salta à vista: são todos movimentos de periferia. Não se trata de contestação no centro. Esses movimentos identitários tiveram um interessante mecanismo de tensão de fora para dentro.
Agência FAPESP – O fato de o Brasil ter mantido o território íntegro, ao contrário do que ocorreu na América espanhola, é ainda algo difícil de explicar? Jancsó – Permanece sendo uma boa pergunta. Mas as duas monarquias tinham algumas diferenças de fundo. Havia diferenças entre seus modelos de ordenamento do sistema colonial. A América espanhola, desde a origem, é constituída por unidades administrativas à semelhança de reinos europeus – os vice-reinos da Nova Espanha, da Nova Granada, e assim por diante, cada um com seu centro de gravidade articulando os interiores. Em torno desses centros de poder, durante 250 anos, os homens iam e voltavam para buscar privilégios, pagar impostos, conseguir trabalho, cargos, honrarias e títulos. De lá se mandava coisa para a Espanha. Isso consolidava determinados ritos, solidariedades e características próprias. Quando o sistema imperial entra em colapso, essa gente busca preservar a ordem que conhecia: a ordem local com seu centro e suas hierarquias.
Agência FAPESP – E no Brasil? Jancsó – No Brasil isso não aconteceu porque a monarquia portuguesa que colonizou o país era uma monarquia precocemente unificada – existia correspondência entre Estado e nação portuguesa anterior à expansão colonial. Na Espanha não era assim – o rei da Espanha era rei de Aragão, de Castela e assim por diante. Era uma monarquia compósita que serviu de modelo para um império colonial de diversidade. No caso de Portugal, tudo convergia para Lisboa. Esse fundamento nacional do antigo regime serviu de modelo para o Brasil.
Agência FAPESP – Que impacto o Projeto Temático terá na produção historiográfica no Brasil? Jancsó – Já está provocando um grande impacto. Essa idéia de processo nos levou a fazer a revista Almanack Braziliense – um fórum permanente de interlocução. Planejamos ainda produzir três livros: um focado na variável “Estado”, outro na variável “identidade” e um produto não previsto no temático: uma linha de investigação sobre a dimensão política do escravismo. O interesse por essa relação entre escravismo e Estado e poder nasceu dentro do projeto temático. Fizemos o seminário e esse livro está pronto para ser editado. Continuaremos publicando. A produção de conhecimento histórico é bastante diferente do que se dá em outras áreas, especialmente em exatas, nas quais um avanço pode tornar o avanço anterior obsoleto. No nosso caso, cada avanço representa um avanço na sedimentação de conhecimento. Vale dizer: ele é permanente. O objetivo é estabelecer um novo patamar de formulação de questões. E eliminar fantasmas.
James H. Degnan1, 2, and Noah A. Rosenberg1, 3, 4,
1Department of Human Genetics, University of Michigan, Ann Arbor, MI 48109, USA
2Current address: Department of Mathematics and Statistics, University of Canterbury, Private Bag 4800, Christchurch 8140, New Zealand
3Center for Computational Medicine and Biology, University of Michigan, Ann Arbor, MI 48109, USA
4Life Sciences Institute, University of Michigan, Ann Arbor, MI 48109, USA
Available online 21 March 2009. The field of phylogenetics is entering a new era in which trees of historical relationships between species are increasingly inferred from multilocus and genomic data. A major challenge for incorporating such large amounts of data into inference of species trees is that conflicting genealogical histories often exist in different genes throughout the genome. Recent advances in genealogical modeling suggest that resolving close species relationships is not quite as simple as applying more data to the problem. Here we discuss the complexities of genealogical discordance and review the issues that new methods for multilocus species tree inference will need to address to account successfully for naturally occurring genomic variability in evolutionary histories.
Article Outline
The problem of gene tree discordance The multispecies coalescent Conceptual basis for discordance Gene tree probabilities Species tree inference Consensus and concatenation New approaches Taxon sampling for species trees Conclusions Acknowledgements Glossary Supplementary data References
Está havendo muito estardalhaço e obaoba (é assim que se escreve agora???) sobre Ida como o elo perdido da evolução dos primatas. A julgar pelo eu tenho visto e recebido, o pessoal de relações públicas já vinha trabalhando há algum tempo para dar esta notícia da 'descoberta científica' no ano em que Darwin completaria 200 anos e o seu livro Origem das Espécies fará 150 anos de lançamento.
Aqui neste blog, a gente mata a cobra e mostra o pau: foi criado um site, já tem um livro, se não bastasse isso tem o filme. Gente, eles trabalharam em 'segredo' por dois anos. Deu tempo suficiente para criar a atmosfera ideal da divulgação pela Grande Mídia e recepção pelos leigos não especializados: finalmente, o fato, Fato, FATO da evolução está mais do que científicamente comprovado assim como a lei da gravidade...
Estamos celebrando neste ano 200 anos do nascimento de Charles Darwin, bem como 150 anos da publicação de sua obra mais conhecida, o livro "A Origem das Espécies", e o estudo do processo de especiação continua sendo uma das questões principais na biologia evolutiva. Apesar de um grande avanço ter sido alcançado nos últimos anos, em função de metodologias mais robustas, computadores mais poderosos e diversos métodos moleculares modernos, ainda sabemos muito pouco das regras que determinam como tal processo ocorre. Para a grande maioria dos evolucionistas, a especiação não passa de um subproduto da ausência de fluxo gênico entre populações.
"Estudos realizados pelo Laboratório de Genética e Evolução da Ufscar em moscas-das-frutas (A. Fraterculus) demonstram a ação da força de seleção."
Um indicador disso é que o exemplo mais reconhecido de especiação envolve a separação de duas populações por uma barreira geográfica, a chamada especiação alopátrica. Com o tempo, a fixação de mutações independentes nas duas populações fará com que estas venham a divergir, genética e fenotipicamente. Assim que tal divergência seja grande o suficiente para tornar tais conjuntos gênicos reprodutivamente incompatíveis, a especiação terá ocorrido. Claramente não podemos inferir que tenha acontecido seleção direta para a evolução do isolamento reprodutivo nessas populações alopátricas. Tal isolamento é consequência de genes que divergiram, por acaso ou por seleção natural, durante e subsequentemente à especiação. Como cada população que se separa está sujeita a diferentes eventos históricos e pressões de seleção, geralmente considera-se que seriam diversos os genes responsáveis pelo isolamento reprodutivo em diferentes taxas. Talvez por isso, vários marcadores já foram considerados, em uma ou outra época, o "aspecto mais importante a ser investigado para se entender especiação". Contudo, diversos eventos de especiação já foram observados em que não foram detectadas variações em um ou mais desses "aspectos essenciais". Tais estudos não implicam que esses fatores nunca estejam envolvidos em especiação, mas indicam que nenhum deles é de fato imprescindível para todos os modos de especiação.
Uma pergunta que nos interessa é: será que de fato cada especiação é um evento singular ou existem certos genes que são mais propensos a produzir um isolamento reprodutivo? A resposta a tal pergunta começou a ser respondida com a observação que, de todos os marcadores morfológicos investigados em animais, características da genitália externa eram as que apresentavam maior taxa de evolução e, por conseguinte, seriam os marcadores mais indicados para se identificar processos de diferenciação nas populações. Interessantemente, também foi observado que genes associados a reconhecimento e determinação sexual apresentam uma taxa de evolução bastante superior à detectada para outros genes em geral. A melhor hipótese para explicar essa taxa de evolução considera que esses marcadores evoluam em resposta à seleção sexual. Já detectamos que o sucesso reprodutivo de machos está associado a diferenças na habilidade de estimular a fêmea, controlar os eventos da fertilização ou mesmo pela capacidade de deslocar o esperma de machos competidores.
Estudos recentes, inclusive em nosso laboratório (no Departamento de Genética e Evolução, na Universidade Federal de São Carlos), investigando este processo de especiação em moscas-das-frutas do grupo de espécies A. Fraterculus, que são das principais pragas de frutos do País, têm mostrado que diversos desses genes apresentam variação fenotípica e genotípica relativamente grande, fruto da ação de uma força de seleção que favorece a diferenciação (chamada de seleção positiva). Duas populações que estão sofrendo efeitos de seleção sexual provavelmente terão maior divergência em preferências sexuais e, portanto, o resultado natural seria o isolamento sexual dessas populações. Isto tornaria os genes envolvidos nesses processos candidatos naturais a serem importantes em processos de especiação, e por isto utilizamos de estratégias distintas para tentar isolá-los. Essas estratégias envolvem em geral a criação de uma biblioteca dos genes que estão sendo expressos em tecidos reprodutivos de machos e fêmeas e, após sua catalogação, uma avaliação de quais desses genes estariam sofrendo maiores pressões de seleção positiva.
Essas estratégias têm permitido a identificação de diversos genes que de fato estão sofrendo processos de seleção diferenciado e se modificando mais rapidamente do que seria de se esperar por acaso. Um exemplo desses tipos de gene foi descrito pelo grupo do Professor Dr. Chung-I Wu, da Universidade de Chicago, na especiação do grupo de moscas-de-frutas Drosophila melanogaster. Eles identificaram que o gene Odysseus surgiu de uma duplicação in tandem nos ancestrais desse grupo, e enquanto o gene do qual este se originou (unc-4) permaneceu rigorosamente com a mesma composição de aminoácidos durante o processo de diferenciação do grupo melanogaster, o gene Odysseus sofreu um grande número de alterações de aminoácidos que indicam um processo de seleção positiva. Como este caso revela, muitos desses genes de especiação isolados têm indicado um papel importante para genes duplicados que assumem novas funções em diferentes espécies e assim os tornam mais propensos a criar incompatibilidades e um possível isolamento reprodutivo entre espécies distintas.
O estudo dos processos de especiação ainda está limitado, na maioria dos exemplos, a estudos realizados em moscas-de-frutas gênero Drosophila e apenas quando tivermos mais exemplos de grupos distintos poderemos invocar uma maior generalidade para essas conclusões, mas o que estamos vendo é que essas estratégias têm permitido que tais estudos possam ser realizados em quaisquer grupos. Por este motivo, temos a convicção de que os próximos anos nos trarão dados relevantes sobre o papel específico da seleção sexual no processo de especiação e permitirão uma maior generalização do entendimento de processos que começaram a ser desvendados por Darwin há 150 e que ainda nos assombram.
Reinaldo Alves de Brito é professor do Departamento de Genética e Evolução, na Universidade Federal de São Carlos.
Se Darwin tivesse passado pela nossa região quando chegou ao Brasil, ele teria encontrado alguns fósseis muito diferentes daquilo que até então se conhecia na época, os ossos de animais pré-históricos. Por aqui ele teria encontrado icnofósseis, pegadas e pistas de animais primitivos que foram preservadas nas rochas. Mas o que levou a essa preservação e de quem são tais pegadas?
No final do Período Jurássico, há mais de 140 milhões de anos, um imenso bloco continental chamado Gondwana reunia os atuais continentes do hemisfério sul, mais a Índia, em um único supercontinente. Essa extensa área continental favoreceu a instalação de um clima muito árido em seu interior, constituindo um paleodeserto que cobriu uma superfície de 1.600.000 km². Foi o maior deserto de areia que já existiu na história do planeta Terra.
Por milhões de anos, essas areias sofreram um longo processo de compactação e cimentação natural, transformando-se em um arenito que os geólogos denominam de Formação Botucatu. As camadas de sedimentos que compõem essas rochas são encontradas na Bacia Sedimentar do Paraná, desde o sul do Estado de Minas Gerais até o Uruguai. No interior de São Paulo, no município de São Carlos, elas são exploradas comercialmente e, além disso, são particularmente importantes, pois representam as dunas fósseis do antigo deserto onde animais pré-históricos deixaram suas pegadas.
Esses animais caminhavam por este deserto em busca de pequenas lagoas que se formavam entre as dunas, em áreas semelhantes aos oásis atuais, onde pudessem encontrar água. Eram dinossauros ornitópodes (herbívoros bípedes), terópodes (carnívoros), mamíferos, outros vertebrados ainda desconhecidos, e um grande número de pequenos invertebrados como besouros, aranhas, escorpiões e larvas. Quando caminhavam pelas dunas, compactavam a areia onde pisavam deixando, além das pegadas, elevações em forma de meia-lua, resultado do esforço dos animais ao se locomoverem. As pegadas eram então recobertas por camadas de areia seca trazida pelo vento, que as protegeriam para sempre.
Curiosamente, embora exista um grande número de pegadas, os ossos desses animais não são encontrados nessas rochas. É possível que o clima rigoroso, associado ao desgaste pela ação erosiva dos grãos de areia transportados pelo vento, além da dissolução causada pela acidez do ambiente, tenha sido a causa da destruição completa dos esqueletos desses animais. Isto explica o motivo pelo qual não encontramos fósseis de dinossauros ou de outros animais nas rochas deste paleodeserto, mas somente suas pegadas. A raridade de fósseis corporais faz com que todas as informações a respeito da vida que levavam restrinjam-se sempre àquelas baseadas na interpretação das impressões de suas pegadas, pistas e escavações.
Em 1932 [SIC], Charles Darwin visitou o Brasil. Caso tivesse passado por nossa região, o pesquisador naturalista encontraria um vasto material fóssil de animais pré-históricos.
A partir de pegadas fossilizadas é possível recuperar informações sobre a anatomia e sobre a vida do animal, assim como suas relações ecológicas com o meio ambiente e com os outros animais. Pegadas, bem como outras marcas de atividades de animais preservadas nas rochas, são conhecidas como icnofósseis e são o objeto de estudo de uma importante subdivisão da Paleontologia conhecida como Paleoicnologia.
O final deste deserto foi selado por um dos maiores eventos magmáticos da história da Terra, ocorrido durante a fragmentação do Gondwana no início do Período Cretáceo. Um imenso volume de magma, com centenas de metros de espessura, foi expelido por fissuras da crosta durante milhões de anos. Este evento provocou alterações severas no clima da região, destruiu o ambiente dos animais e plantas e mudou a paisagem, causando o desaparecimento de muitas espécies.
Marcelo Adorna é professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de São Carlos.
Desenvolvimento dos métodos de pesquisa redefiniu o papel da imaginação na Ciência
Ao rejeitar o valor de regras que se impunham como verdades absolutas e valorizar a imaginação de teorias com liberdade, Charles Darwin teve um papel protagonista na mudança da mentalidade que fundamenta o trabalho científico.
"Até o final do século XIX, a ideia que se tinha era que o conhecimento científico era um acúmulo de verdades estabelecidas de uma vez por todas", explica o professor Renan Springer de Freitas, do programa de doutorado em Sociologia e Política da Universidade Federal de Minas Gerais. "Hoje, é mais comum aceitar a ideia de que o conhecimento científico é conjectural, e o que é verdade hoje pode se revelar falso amanhã."
A aceitação universal da ciência de Isaac Newton (esquerda) e a aceitação provisória da ciência de Darwin (à direita). Entre eles, a conclusão de Karl Popper: o conhecimento evolui através de conjecturas e refutações.
Foi de dentro da própria Ciência que brotaram as evidências de que era preciso mudar tal mentalidade. Freitas comenta um dos fatos que contribuíram para a mudança. "Na virada do século XIX para o século XX, a física newtoniana, por exemplo, que sempre foi tida como uma verdade universal, começou a demonstrar sérios problemas, porque não admitia que a velocidade da luz era constante. Assim, para dar continuidade ao estudo do cosmos, os cientistas tiveram de admitir os limites de uma clássica verdade da Ciência", diz Freitas.
"No contexto em que se moveu Darwin, na Inglaterra do século XIX, a Ciência era vista, em suas grandes linhas, como uma investigação racional cuja meta por excelência seriam as explicações causais dos fenômenos naturais e o progresso moral e social, segundo critérios e procedimentos sancionados para a obtenção de explicações satisfatórias", explica a professora Anna Carolina Regner, do programa de pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul. Assim, fatores que escapassem ao rigor metodológico da época como, por exemplo, a imaginação, os hábitos mentais do indivíduo que faz Ciência, conjecturas trazidas pelo acaso e os limites da linguagem não eram considerados.
Mas Darwin, para construir seu objeto de estudos, precisou ir além dos cânones científicos de seu tempo. E a publicação de "A origem das espécies" abalou as bases da racionalidade científica, porque, junto com a descrição rigorosa do que observou empiricamente, o naturalista acrescentou hipóteses fundamentadas, sobretudo, na sua imaginação de cientista. Neste ponto, surge a pergunta: uma vez que os métodos clássicos da Ciência poderiam não ser perfeitos, que privilégio ela teria sobre outras formas de conhecimento? Tal momento de crise coincide com o período de maturidade intelectual de Darwin, que soube se integrar aos novos modos de pensar, ainda pouco sistemáticos, porém autocríticos. Darwin parece ter percebido, na sua própria prática, que a pesquisa científica avança por conjecturas e refutações.
Esses movimentos, segundo Freitas, podem ser vistos como correlatos na Filosofia da Ciência de dois mecanismos básicos do pensamento darwiniano, que são a mutação e a seleção. Em outras palavras, uma ideia (assim como uma espécie) pode permanecer até que um novo fator (uma mutação) a modifique, para evoluir em direção a uma nova ideia (como uma nova espécie). "O conhecimento é algo que evolui através da crítica e da revisão."
Especialistas explicam processos que levam à existência de novas espécies. Em evolução, resultado é sempre uma combinação complexa de forças diversas
No senso comum, a ideia de evolução de uma espécie está associada à conquista de um estágio mais avançado, uma modificação que tornaria essa espécie, de alguma forma, superior. Na perspectiva da Ciência, a ideia de evolução está mais próxima à de movimento do que à de superioridade.
Homo neanderthalensis e Homo sapiens sapiens, parentes não tão distantes. Há indícios que o último homem-de-neandertal habitou a região do continente europeu a cerca de 30 mil anos.
Segundo o geneticista Francisco Prosdocimi, do Laboratoire de Biologie et Genomique Structurales, de Strasbourg, na França, as espécies existentes hoje resultam da combinação de uma série de processos que modificaram seus antepassados para que continuassem vivendo num ambiente também em movimento, naquilo que a Ciência chama de especiação. E como ocorre esse processo de formação das espécies? Para entender esse fenômeno, antes, é preciso entender o que é uma espécie, o que não é tarefa das mais fáceis.
Para a Biologia, espécies são os nomes que os biólogos dão a grupos de organismos que se parecem, e que são capazes de se reproduzir originando prole fértil. No entanto, "o problema das espécies", como é chamada a discussão, vai um pouco mais além. Segundo Prosdocimi, as definições de espécie são sempre alvo de grandes debates entre os pesquisadores. "Existem as mais interessantes variações no conceito, e não é possível definir com exata precisão e pleno acordo do que se trate uma determinada espécie." Reinaldo Alves de Brito, professor do Departamento de Genética e Evolução da Universidade Federal de São Carlos, por sua vez ressalta que atualmente são utilizados mais de 20 conceitos diferentes para se definir uma espécie.
O primeiro teste feito para tentar descobrir a possível especiação é verificar se esse processo vem acontecendo ao longo do tempo. Brito explica que mesmo após o processo de especiação, uma grande similaridade entre os genomas de duas espécies pode persistir mesmo elas não se cruzando mais. Isto pode ser resultado de uma especiação que ainda está acontecendo. Segundo o cientista, quanto maior o tempo de isolamento entre as duas populações, maiores serão as diferenças entre seus genes e, consequentemente, entre suas linhagens. Assim, através de comparações dos genomas é possível determinar a história evolutiva de uma espécie.
Uma das formas de haver a divisão de uma espécie é através do isolamento geográfico. O professor José Fernando Fontanari, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), pesquisador de Física Estatística aplicada à área de Genética de Populações, conta que esse conceito foi desenvolvido por Ernst Mayr, na década de 40. "Mayr basicamente afirma que se uma população é separada ou dividida por uma barreira geográfica, e evolui de forma independente, a divergência genética acabará levando ao isolamento reprodutivo."
Esse processo, no entanto, é bem vagaroso, podendo se estender por milhares de anos. Fontanari explica que, apesar de não se saber quantos genes distintos são necessários para garantir o isolamento reprodutivo, é possível fazer uma estimativa levando em consideração as diferentes pressões sofridas nos diferentes ambientes. Através de um cálculo desenvolvido por Sergey Gavrilets, um biomatemático russo, chega-se a cerca de 10 mil gerações de isolamento para que ocorra uma nova espécie. Fontanari explica que, para o cálculo, supõe-se uma taxa de mutação da ordem de 0,001% a 0,0001% por gene, por geração, sendo necessária a mutação em 10 a 100 genes distintos. "No caso da espécie humana, a duração de uma geração é de 20 anos, tipicamente, sendo então necessários uns 200 mil anos de isolamento para que tenhamos uma nova espécie de hominídeos. É curioso que essa estimativa coincida aproximadamente com a idade de nossa espécie." Apesar disso, Fontanari não acredita que possamos sofrer variações adaptativas, pois é o homem que tem adaptado seu ambiente de acordo com as suas necessidades.
Brito afirma que o processo de especiação está diretamente ligado à dinâmica da população. Em populações de maior número, o tempo necessário para que a mudança esteja presente em todos os indivíduos será maior, pois ela será passada aos poucos de geração em geração. O individuo com a mutação, ao se reproduzir, poderá passar suas alterações para seus filhos, que por sua vez poderão passar para seus netos e assim sucessivamente, até que essa variação esteja disseminada na população. Já em uma população pequena, a chance dessa mutação ser fixada ou eliminada do grupo é maior, pois a possibilidade de cruzamentos entre indivíduos diferentes dentro do grupo será menor. Esse processo no qual são passadas características de indivíduos entre as gerações é chamado de deriva genética.
No entanto, se por um lado em populações pequenas é mais dinâmica a passagem de mutações para o grupo, mesmo que estas sejam características desvantajosas, em populações maiores a seleção natural, muitas vezes, poderá ter um efeito mais relevante. Uma vez tendo mais cruzamentos, a variação resultante desses cruzamentos também será maior, enfraquecendo a força da deriva genética. Assim, a pressão da seleção natural, que atua sobre todo o grupo, passa a se sobrepor à possibilidade de perpetuação de características apenas por deriva genética. "Essa é uma regra geral pra tudo que acontece em evolução, nunca tem uma força só agindo. São sempre combinações de forças. E existe sempre uma regra pra essas forças, e o que vai existir hoje é justamente o resultado desse balanço de forças", ressalta Brito. Embora muita coisa seja conhecida dentro dos processos de formação das espécies, a quantidade de variáveis torna imprevisível os caminhos que a especiação seguirá. Desse conjunto de variáveis surge o conceito de acaso.
Francisco Prosdocimi explica que a evolução em seu nível mais molecular ocorre como resultado de mutações em DNA (onde estão contidas as informações genéticas do organismo), de modo aleatório. A identificação de sequências mais suscetíveis a mutações pode ser feita através da comparação do genoma de diversos indivíduos da espécie. Nessa comparação, as regiões que apresentam maior variação entre os indivíduos são as mais propensas a mutações.
Outro fator incidente nas mutações são os agentes mutagênicos. Essas moléculas ou agentes físicos especiais causam desestabilização no DNA ao se aproximarem ou incidirem sobre ele. Exemplos desses agentes são a luz ultravioleta do sol e os radicais livres de oxigênio. "Sabemos que há sequências mais suscetíveis a mutações que outras, e sabemos que alguns agentes mutagênicos privilegiam certas mutações em vez de outras. Mas jamais saberemos exatamente qual mutação irá acontecer, uma vez que, por mais que algumas sejam mais prováveis que outras (teoricamente), o fator acaso está envolvido e representa uma parte importante dos fenômenos naturais," ressalta Prosdocimi.
A evolução das espécies em decorrência de uma mutação não ocorre com uma finalidade específica, ela não responde a uma necessidade do organismo. Brito comenta que não é pelo fato de, por exemplo, estarmos acabando com a camada de ozônio, que teremos genes resistentes a isto. "As coisas não funcionam desse jeito. É isso que queremos dizer quando destacamos que as mudanças ocorrem ao acaso, elas não surgem para uma necessidade da espécie. Quando surgem, contudo, elas podem ser selecionadas e aí sim teremos um processo eminentemente direcional."
Apesar da seleção natural ser um processo direcional, em longo prazo nem sempre as características selecionadas são benéficas. Brito lembra o fato de nossos ancestrais poderem respirar debaixo da água, característica que perdemos em nosso processo de evolução. "Nós perdemos isto. Seria sensacional se nós conseguíssemos respirar debaixo da água, como nossos ancestrais faziam. Hoje, as nossas adaptações foram para outras coisas. Foram para alguma direção específica? Foram para alguma direção, mas a gente não sabe onde esse processo vai culminar."
Um passo além: a formulação da teoria que atualizou Darwin
Teoria sintética da evolução incorporou conhecimentos vindos da Genética, da Paleontologia e da Bioquímica
Com o passar do tempo, o conhecimento científico tende a se aprimorar, novas descobertas são feitas, algumas teorias são unificadas, outras se desintegram, umas entram na moda, outras malogram. Não foi diferente com a teoria de Darwin sobre a evolução das espécies. Com o correr dos anos, novos cientistas, com diferentes estudos, foram agregando informações às ideias lançadas em 1859, no revolucionário "A Origem das Espécies", o que levou ao surgimento, na primeira metade do século XX, de uma formulação moderna para os estudos evolutivos - a chamada teoria sintética da evolução, ou simplesmente neodarwinismo.
A teoria sintética considera, principalmente, conhecimentos adquiridos depois de Darwin nas áreas da hereditariedade, da genética clássica e da genética de populações.
"Objetivamente, a teoria sintética da evolução é uma atualização da teoria da evolução darwiniana, que leva em consideração certos fatores desconhecidos por Darwin", explica Francisco Prosdocimi, geneticista do Laboratoire de Biologie et Genomique Structurales, de Strasbourg, na França. "A diferença é que a teoria sintética considera, principalmente, conhecimentos adquiridos depois de Darwin nas áreas da hereditariedade, da genética clássica e da genética de populações", afirma ele.
Apesar de ser considerada fundamentalmente uma atualização da teoria evolucionista, a teoria sintética trouxe algumas modificações conceituais para os estudos sobre evolução.
Prosdocimi destaca algumas alterações no pensamento que são importantes na passagem de uma teoria para outra. Primeiramente, ele cita a rejeição de August Weissmann à teoria da herança dos caracteres adquiridos, ainda no século XIX. A teoria da herança dos caracteres adquiridos afirmava por exemplo que, se alguém fizer muita musculação ao longo da vida, seu filho já vai nascer forte. Tal teoria é um dos principais pontos que diferencia a evolução lamarckista (de Jean-Baptiste Lamarck, naturalista francês) em comparação com a evolução darwiniana. Entretanto, mesmo Darwin chegava a propor, em algumas partes de "A origem das espécies", a evolução através de caracteres adquiridos. Foi apenas com Weissmann - fazendo experimentos clássicos como cortar o rabo de roedores e verificar se a prole nascia sem rabo, dentre outros - que a teoria foi finalmente refutada.
Em seguida, veio a redescoberta, no início do século XX, dos trabalhos do monge Gregor Mendel, considerado o "pai da genética". "Os trabalhos de Mendel ficaram esquecidos porque eles jamais foram publicados em Inglês e, portanto, não chegaram até os grandes evolucionistas do mundo. Apenas quando foram traduzidos, por volta de 1900, é que se diz que eles foram redescobertos. A abordagem mendeliana permitiu que os darwinistas conseguissem explicar a evolução por meio de herança", conta Prosdocimi.
Por fim, a síntese dos conhecimentos dos zoólogos e dos geneticistas de população sob uma ótica darwiniana contribuiu para aprimorar a observação das espécies. "Os zoólogos sempre estiveram interessados na diferenciação entre as espécies e mecanismos de especiação, enquanto os geneticistas de populações estiveram interessados na evolução dentro de uma mesma linhagem", diz o pesquisador do laboratório francês. Juntos, zoólogos e geneticistas reuniram evidências empíricas para ampliar o horizonte explicativo de Darwin. Nesse sentido, Ernst Mayr, em seu livro "One Long Argument: Charles Darwin and The Genesis of Modern Evolutionary Thought" (Um grande argumento: Charles Darwin e a gênese do moderno pensamento evolucionário, Editora da Universidade de Harvard, 1993), considera que a principal realização da teoria sintética foi desenvolver uma visão unificada sobre a natureza da mudança genética.
Evidenciando o contraste
Com o aprimoramento e a atualização das idéias de Darwin, algumas diferenças se fizeram presentes entre o pensamento original e a "nova" teoria que surgiu. As discrepâncias importantes entre a teoria sintética da evolução e a teoria de Darwin podem ser resumidas da seguinte forma: a teoria sintética admite a mudança genética aleatória como um mecanismo da evolução importante, juntamente com o mecanismo da seleção natural; assume que os caracteres são herdados através dos genes e que as variações da população devem-se à presença de múltiplas variações de um gene; e, finalmente, supõe que a especiação se deve, normalmente, a pequenas mudanças aleatórias na informação genética.
Já a teoria clássica também sabia que fatores aleatórios estavam envolvidos na forma como as mutações aconteciam, mas Darwin ainda tinha uma veia herdada de Lamarck, e chegou a argumentar em favor da herança de caracteres adquiridos como fonte da variação entre os indivíduos. Em relação à herança genética, ele não conseguiu explicar a transmissão específica de certas informações, como cor do cabelo e dos olhos, ao longo das gerações, como foi possível pós-Mendel. E no que diz respeito à especiação, Darwin considerava a separação geográfica como a chave desse processo. "Estando em diferentes ambientes, há diferentes fatores mutagênicos e fatores aleatórios que mudam o DNA de uma forma específica numa e noutra população. Além disso, as mudanças seriam filtradas pelo mecanismo de seleção natural, que define os indivíduos mais ou menos adaptados", explica Prosdocimi.
"Na verdade, essas diferenças são resultado do enriquecimento do darwinismo, que incorporou uma série de outros conhecimentos vindos da Paleontologia e da Bioquímica. E esta é a magia da Ciência: progredir sempre, pois o dia em que parar de progredir deixa de ser Ciência, tendo em vista que os modelos científicos podem ser cada vez melhores à medida que se descobrem coisas novas", afirma Marco Del Lama, professor do Departamento de Genética e Evolução da Universidade Federal de São Carlos. Portanto, numa combinação da teoria de evolução das espécies por meio de seleção natural com a herança genética e a genética populacional, a teoria sintética modernizou o darwinismo e, depois dela, ainda houve uma nova revolução trazida pela descoberta da estrutura molecular da vida, o código genético e o sequenciamento de genomas.
Os pilares da Teoria Sintética
O neodarwinismo baseia-se em cinco processos básicos da evolução: mutação, recombinação genética, seleção natural, migração e oscilação genética.
Mutação: alteração na sequência de bases nitrogenadas de um determinado gene, durante a duplicação da molécula de DNA. As mutações gênicas são consideradas as fontes primárias da variabilidade, e elas ocorrem ao acaso.
Recombinação genética: enquanto a mutação é a fonte fundamental da variação genética, pois é através dela que são formados genes "novos", a recombinação é um mecanismo que reorganiza os genes já existentes nos cromossomos. O mecanismo primário de recombinação genética é a reprodução sexuada.
Seleção natural: consiste na seleção de genótipos mais bem adaptados a uma determinada condição ecológica, eliminando aqueles desvantajosos para essa mesma condição.
Migração: corresponde à entrada ou saída de indivíduos de um determinado território. Através dos processos migratórios há a possibilidade de serem introduzidos genes novos em uma população.
Oscilação genética: ocorre apenas em populações pequenas. Significa que qualquer alteração ao acaso pode produzir alterações na frequência genotípica. Um caso de oscilação genética é o denominado princípio do fundador, que se refere ao estabelecimento de uma nova população a partir de poucos indivíduos que emigram da população original. Esses indivíduos serão portadores de pequena fração da variação genética da população de origem e seus descendentes apresentarão apenas essa variabilidade, até que genes novos ocorram por mutação.
Mesmo com escassez de informações, Darwin fez história pela revolução que provocou na Biologia. O impacto foi imenso apesar do pesquisador inglês não ter conseguido solucionar inteiramente o enigma do surgimento das espécies. Mas isto é normal quando se fala de Ciência...
Apesar da fama, acredite: Darwin já foi bastante criticado por causa de brechas que permaneceram em sua teoria. A existência dessas lacunas, entretanto, não significa que o pensamento está errado: apenas mostra que a Ciência é uma obra humana, construída de maneira coletiva e dentro das possibilidades e limites de um determinado contexto social.
Segundo o geneticista Francisco Prosdocimi, do Laboratoire de Biologie et Genomique Structurales, de Strasbourg, na França, houve realmente várias brechas nos estudos sobre a evolução, algumas já sanadas e outras que ainda estão em aberto. "Por exemplo, não se sabe ainda como a vida se originou, não se sabe onde e não se sabe com qual organismo isso aconteceu. Além disso, as datações de eventos do passado vão sempre ficando melhores, mas nunca perfeitas", afirma ele.
"É preciso compreender que a ciência de uma época futura será sempre mais desenvolvida do que a de uma era presente, assim como a ciência do presente é mais desenvolvida que a do passado".
Um dos grandes pontos de crítica, ainda de acordo com Prosdocimi, refere-se à incompletude do registro fóssil. "Acontece que não conseguimos encontrar fósseis que representem todos os intermediários para as grandes mudanças anatômicas dos animais, embora novos fósseis que ligam linhagens antigas sejam sempre encontrados aqui e ali, no decorrer dos anos."
Além disso, Darwin acreditava que as informações genéticas eram transmitidas através de homúnculos, ou seja, através de pequenos homenzinhos que entravam nos espermatozóides e nos oócitos (os gametas femininos que ainda não atingiram a maturidade) e eram passados à linhagem de indivíduos. "Isto [a explicação de Darwin] revela a enorme falta de conhecimento na época, mas ressalta a extrema capacidade que ele teve de chegar a algo tão sensacional como foi a sua teoria, tendo tão pouco conhecimento de Genética", enfatiza o professor Reinaldo Alves de Brito, do Departamento de Genética e Evolução da Universidade Federal de São Carlos.
De lá pra cá, muito já se aprendeu sobre Genética, o DNA foi descoberto e pôde-se melhorar o pensamento darwiniano. Mas, por outro lado, ainda existem grandes dificuldades para lidar com alguns aspectos que são essenciais para o entendimento do processo de evolução. "O mais importante deles é o que se refere ao antagonismo entre os estudos de Darwin e os do monge Gregor Mendel em relação às características complexas", afirma Alves de Brito. Considerado o "pai da Genética", Mendel propôs - em 1865, seis anos depois do lançamento de "A Origem das Espécies" - que a existência de características (tais como a cor) das plantas é devida à existência de um par de unidades elementares de hereditariedade, agora conhecidas como genes.
Em outras palavras, os estudos darwinianos baseiam-se na ideia de que as mudanças que ocorrem nos organismos são pequenas e vagarosas, por isso é difícil à mente humana compreender o processo. Mendel, por sua vez, descobriu que existem fatores controladores das características que os seres têm, os quais acarretam grandes mudanças nos fenótipos (caracteres observáveis de um indivíduo). Ou seja, "Mendel descobriu que certos fatores fenotípicos, como a rugosidade de sementes de ervilha, tinham uma característica herdável que podia ser facilmente identificável quando se avaliava o fenótipo dos pais e da prole", explica Prosdocimi
Assim, Darwin acreditava que a evolução acontece através de pequenas mudanças nos organismos - em virtude, sobretudo do mecanismo de seleção natural -; já Mendel propunha que a evolução pode se dar através de grandes mudanças, possíveis pela herança genética. Essa divergência "só aumentou os questionamentos dos críticos do evolucionismo", explica Alves de Brito. Soluções possíveis para esse conflito e o entendimento de que as ideias eram complementares vieram tempos depois, com as primeiras descobertas sobre o funcionamento do código genético.
O conhecimento em construção
Até que ponto podemos considerar como falhas o que Darwin não soube responder, ou respondeu de forma inconsistente?
Para que se evolua nessa discussão é necessário, antes de mais nada, que se entenda um pouco sobre a ciência dentro das Humanidades conhecida como Epistemologia, ou Teoria do Conhecimento. A Epistemologia tenta explicar como produzimos conhecimento e como o interpretamos à luz das evidências e de fatores sociais e históricos. "Quando estudamos Epistemologia, entendemos que todas as teorias científicas possuem brechas e que nenhuma teoria pode pretender explicar absolutamente todos os fatos dentro de seu domínio de estudo", explica Prosdocimi.
Dessa forma, a ciência de uma determinada época consiste no melhor modelo que os humanos encontraram para explicar determinados fenômenos ou grupo de fenômenos, mas não consiste num modelo infalível ou perfeito. Assim, se olharmos para a história da Ciência, podemos verificar que até mesmo a mais fortemente embasada teoria científica de todos os tempos, a física newtoniana, mostrou não ser capaz de explicar todos os fenômenos físicos no Universo. Einstein mostrou que o espaço-tempo relativo podia explicar um número maior de fenômenos do que aqueles previstos por Newton. Apesar disso, não se pode dizer que física newtoniana esteja errada; pelo contrário, ela é aplicada ainda hoje em uma quantidade enorme de domínios, porque consiste numa simplificação útil, clara e precisa das principais leis físicas que parecem governar o universo em que vivemos.
"Além disso, é preciso compreender que a ciência de uma época futura será sempre mais desenvolvida do que a de uma era presente, assim como a ciência do presente é mais desenvolvida que a do passado. A Ciência, por não acreditar em dogmas, está sempre se questionando e se reconstruindo. Na Ciência é uma virtude encontrar erros e corrigi-los, e os mais famosos cientistas fizeram isto e continuarão fazendo, sob o risco de ganharem um Nobel. O fato de a Ciência apresentar brechas é um desafio para os cientistas e deve ser visto como algo positivo, não negativo", conclui o pesquisador do laboratório francês.
Onde já chegamos
Muita coisa mudou na ciência da evolução desde Darwin, embora as descobertas recentes ainda se apoiem nas ideias dele. Em linhas gerais, de lá pra cá, o que houve foi uma expansão do darwinismo para incorporar novas descobertas, particularmente nos últimos 30 anos, com a chamada revolução genômica, que ocorreu depois da descoberta do código genético e da estrutura do DNA.
"A descoberta de dados moleculares trouxe muitos conhecimentos novos e permitiu uma enorme expansão do pensamento", explica o professor Alves de Brito, da UFSCar. "Sobretudo em relação à quantidade de variação que existe na Natureza: constatamos que a variação é assombrosa e podemos dizer, seguramente, que não existem dois seres iguais, mesmo gêmeos", detalha. Essa constatação nos dá a garantia definitiva de que a evolução pode acontecer, porque se há variação, a evolução é possível.
Para o professor José Fernando Fontanari, do Instituto de Física de São Carlos IFSC/USP), e pesquisador de Física Estatística aplicada à área de genética de populações, "o entendimento da natureza discreta da hereditariedade (genes) devido a Mendel e a descoberta da molécula de DNA como a base física da hereditariedade e, como conseqüência, a compreensão de que mutações são alterações nessa molécula forneceram os mecanismos que faltavam à Teoria de Darwin".
Já para Prosdocimi, "o sequenciamento de genomas tem mostrado cada vez mais como todas as espécies em nosso Planeta apresentam um metabolismo e um conteúdo de genes e proteínas bastante similar, reforçando, cada vez mais, a teoria da ancestralidade comum e, portanto, a teoria darwiniana da evolução".
Os impactos do darwinismo na sociedade do século XIX
Como os estudos de Darwin extrapolaram os muros da Ciência e entraram em conflito com a crença religiosa
O livro "Sobre a origem das espécies através da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida" - mais conhecido como "A Origem das Espécies" -, de Charles Darwin, foi lançado em 24 de novembro de 1859 e esgotou rapidamente, criando muitas controvérsias conceituais e ideológicas que ultrapassaram o universo acadêmico ao se chocarem com a crença religiosa do criacionismo, tal como é apresentado na Bíblia, no livro do Gênesis.
Com o lançamento do livro, o naturalista britânico foi acusado pela Igreja de ateísmo, uma vez que as implicações de sua teoria mostravam que o homem era simplesmente um animal, em vez de uma criatura criada à imagem e semelhança de Deus.
Em "A Origem das Espécies", Darwin apresentou questões relacionadas à gênese e ao desenvolvimento da vida. Nele, rejeitou o princípio de fixidez das espécies, aderindo à noção de variação gradual dos seres vivos graças ao acúmulo de modificações pequenas, sucessivas e favoráveis, e não por modificações extraordinárias, surgidas repentinamente.
Darwin foi extremamente criticado quando publicou seus estudos, e não foi à toa que, tendo imaginado boa parte de sua teoria ainda na juventude, quando viajou no navio HMS Beagle por todo o mundo coletando espécimes, ele foi publicá-la apenas quando já comemorava seus 50 anos.
Com o lançamento do livro, o naturalista britânico foi acusado pela Igreja de ateísmo, uma vez que as implicações de sua teoria mostravam que o homem era simplesmente um animal, em vez de uma criatura criada à imagem e semelhança de Deus. Além disso, a teoria da evolução darwiniana não tornava necessário um deus sequer para explicar a origem das outras espécies animais e vegetais. "Antes da época de Darwin, a visão que se tinha das espécies - normalmente uma ideia oriunda dos trabalhos do naturalista francês Georges-Louis Leclerc, o Conde de Buffon, e que de certa forma remontava a Aristóteles e à Grécia antiga - era de que todas as espécies existentes no mundo consistiam em degenerações de espécies ideais (platônicas) existentes apenas na mente de Deus", diz o geneticista Francisco Prosdocimi, do Laboratoire de Biologie et Genomique Structurales, de Strasbourg na França.
Assim, de uma só vez, Darwin tirava dos homens seu status superior e dizia que Deus não havia sido necessário para criar nenhuma outra espécie. "Foi um choque e tanto para a Igreja da época e até hoje as discussões infelizmente perduram entre criacionistas e evolucionistas", afirma o geneticista.
A suposta competição entre cientistas
"A Origem das Espécies" foi terminada às pressas depois que Darwin recebeu um trabalho do jovem naturalista Alfred Russel Wallace que delineava ideias similares às suas sobre o mecanismo de evolução das espécies e de seleção natural.
Então Darwin passou à frente de outro cientista? Por que Wallace não ficou tão famoso quanto Darwin? "Não é verdade que Wallace não tenha ficado famoso. Todos que trabalham com evolução o conhecem muito bem e ele chegou a ser reconhecido, em vida, como um grande evolucionista", afirma Prosdocimi.
Ainda de acordo com Prosdocimi, aparentemente não houve nenhum tipo de disputa clara entre eles. "Acontece que Darwin já era um pesquisador mais velho, com uma carreira mais bem delineada, e já tinha um ótimo esboço de sua teoria, que viria a ser publicado no ano seguinte ao encontro com Wallace, cujos estudos serviram até como um incentivo a mais para Darwin. Tanto Wallace quanto Darwin publicaram vários trabalhos sobre a teoria da evolução na segunda metade do século XIX e tiveram sua fama", esclarece.
Seleção natural, variação, ou o pouco discutido conceito de ancestralidade comum? Conheça as chaves conceituais da Teoria da Evolução
Variação, diversidade, seleção natural, seleção sexual e adaptação são conceitos que sempre vêm à tona quando se fala em Darwin e em suas teorias sobre a origem das espécies. Mas serão mesmo estes os conceitos fundamentais dos estudos de Darwin? Afinal de contas, o que é essencial entendermos se quisermos compreender as ideias do famoso naturalista britânico?
Primeiramente, é necessário ter em mente que Darwin, ao propor sua teoria sobre a evolução das espécies, rompeu com os modelos evolutivos que existiam até então. "Ele possibilitou uma mudança de paradigma: todos pensavam a Natureza como uma coisa estanque, estática, ou seja, acreditavam que todas as formas vivas haviam sido criadas por Deus de uma forma que não sofreria modificações", conta Reinaldo Alves de Brito, professor do Departamento de Genética e Evolução da Universidade Federal de São Carlos.
Os estudos de Darwin, no entanto, permitiram que houvesse formas de ver os organismos, sobretudo os da mesma espécie, como seres diferentes entre si. Isto é, uma espécie não seria representada por apenas um indivíduo, pois cada um dos indivíduos seria diferente, ou potencialmente diferente dos seus pares - por exemplo, a espécie canina não poderia, portanto, ser representada por um único cachorro. E o que isto traz de novo?
"Isto traz a variação pro centro da discussão da história da vida. A variação passa a ser a questão que deve ser reconhecida numa espécie: se existe variação entre os organismos, ela pode fazer com que determinados indivíduos tenham vantagens e outros não. Mudou-se, portanto, de um pensamento segundo o qual a variação era considerada apenas um erro do processo, para um pensamento em que ela passa a ser o que rege o processo de evolução", responde Alves de Brito.
"Se pudéssemos rodar o tempo para trás, veríamos que os organismos existentes hoje teriam sido um único animal no passado. Humanos e chimpanzés, por exemplo, já foram um outro macaco no passado, que não era nem humano, nem chimpanzé".
Diante disso, uma outra questão se fez preponderante: se os organismos têm diferenças anatômicas (que podem, ou não, se configurar como vantajosas para a sobrevivência no meio ambiente), o que controla quais características serão passadas para as próximas gerações e quais serão descartadas pelo processo evolutivo? Foi esse questionamento que fez com que Darwin pensasse num mecanismo de seleção natural. A proposta da seleção natural, "como o mecanismo de criação, ou design, da ordem e complexidade dos seres vivos", é a chave conceitual dos estudos de Darwin, segundo o professor José Fernando Fontanari, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), pesquisador de Física Estatística aplicada à área de Genética de Populações.
A seleção natural tem como princípio a adequação de uma característica de determinado ser vivo ao ambiente. Ou seja, como representantes de uma mesma espécie são diversos entre si, o meio se responsabilizaria por selecionar quais características são vantajosas e quais não são. Assim, características benéficas se consolidam na população como caráter padrão, transmitido de geração em geração; já as que são desfavoráveis para um organismo não se perpetuam reprodutivamente.
"Por exemplo: imagine, em um passado distante, que uma população de ursos acaba de chegar pela primeira vez ao Pólo Norte, onde nenhum animal dessa espécie jamais conseguiu viver antes. Suponha que essa população encontre, além das condições inóspitas, recursos alimentares suficientes para se instalar ali por muitas gerações. Suponha também que não existam dois ursos exatamente iguais, que eles variem em termos de idade, sexo (gênero), altura, peso, espessura da pele, cor do pelo etc. Suponha, além disso, que nem todos os ursinhos que vêm ao mundo consigam sobreviver até a idade adulta da reprodução, por causa de certo limite de recursos, como o de alimentos e cuidado dos pais. Como a região explorada por essa espécie está coberta de neve, aqueles ursos que possuíssem determinadas variações aleatórias poderiam se sair melhor do que outros, dotados de variações diferentes: os indivíduos que possuíssem uma pele mais grossa e um pelo mais claro estariam variando nas direções favorecidas pelo ambiente, e portanto seriam fortes candidatos a vencer a luta pela sobrevivência", exemplifica Ricardo Waizbort, em seu trabalho "Plumas, cantos e armas: Darwin e a seleção sexual".
"Isto eliminou a necessidade de um designer externo para explicar a existência de entidades complexas na Natureza [já que a seleção natural é um processo sem selecionador; o meio em que habita a espécie faz o papel de selecionador]. Trata-se de um insight tão profundo a ponto do filósofo Daniel Dennett chamá-lo de ácido universal - capaz de literalmente desintegrar todas as noções metafísicas arraigadas em nossa civilização", afirma o professor Fontanari, da USP de São Carlos.
Para Fontanari, a segunda grande contribuição de Darwin foi a percepção da importância da seleção sexual, do "processo e resultado de escolhas, não necessariamente conscientes, dos parceiros reprodutivos, obviamente de uma mesma espécie", como explica Waizbort no artigo citado. Ou seja, a escolha das fêmeas, que selecionam o parceiro pelos caracteres sexuais secundários (aqueles que não estão diretamente relacionados com o ato da reprodução, por exemplo plumas e chifres), também se constituiria como um processo responsável pela perpetuação ou desaparecimento de uma característica, em determinada espécie. "É fantástico que ele tenha explorado essas ideias ao limite, mesmo desconhecendo os mecanismos corretos responsáveis pela variação e herança genética", enfatiza Fontanari.
A Ancestralidade Comum
"Embora Darwin seja normalmente reverenciado por ter sugerido o conceito de seleção natural, creio que o principal conceito necessário para entender a teoria evolutiva seja o de Ancestralidade Comum", afirma o geneticista Francisco Prosdocimi, do Laboratoire de Biologie et Genomique Structurales, de Strasbourg, na França.
Segundo Prosdocimi, esse conceito é normalmente mal entendido pelas pessoas, que ainda têm uma visão da evolução como uma grande escada dos seres, na qual os seres mais "primitivos" transformam-se em seres mais "evoluídos", e onde o homem é considerado normalmente "o mais evoluído" dos seres. "Esta é uma visão incorreta, que pode ser ainda hoje verificada nas mais diversas manifestações culturais", afirma.
"Para Darwin não há organismos mais ou menos evoluídos, todos os organismos existentes hoje no Planeta descendem de um suposto primeiro organismo que teria surgido na Terra há mais de 3,5 bilhões de anos. Se pudéssemos rodar o tempo para trás, veríamos que os organismos existentes hoje teriam sido um único animal no passado. Humanos e chimpanzés, por exemplo, já foram um outro macaco no passado, que não era nem humano, nem chimpanzé. E aí está o conceito de ancestralidade comum", explica o geneticista.
Segundo as teorias de Darwin, todos os organismos da Terra têm ancestrais comuns que podem ser mais antigos ou mais novos. "Eu e minha prima, por exemplo, temos ancestrais comuns que são nossos avós. Da mesma forma, duas espécies de organismos quaisquer, como a baleia e o gato, têm ancestrais comuns que podem estar mais próximos ou mais distantes no tempo. Já o gato e o tigre, que são dois animais da ordem Felidae - dos felinos - têm ancestrais comuns, avós evolutivos, mais recentes no tempo do que o sapo e o homem (um anfíbio e um primata). Isto significa que o ancestral dos felinos viveu num passado mais próximo que o ancestral entre anfíbios e primatas. Assim, quanto menos tempo tenha se passado desde um determinado ancestral e o presente, mais próximos dizemos que são os organismos", exemplifica Prosdocimi.
Humanos e chimpanzés, por exemplo, são muito mais próximos entre si do que, digamos, o cão e o cavalo. Estimativas dizem que humanos e chimpanzés teriam se divergido de um ancestral comum há cerca de 5 ou 7 milhões de anos, enquanto o tempo estimado para a divergência de cães e cavalos está em cerca de 75 milhões de anos atrás. De fato, qualquer pessoa que observasse com cuidado a anatomia desses animais poderia ter chegado a conclusão similar...
Por que sou ‘pós-darwinista’? Porque já fui evolucionista de carteirinha. Hoje, sou cético da teoria macroevolutiva como verdade científica. Contudo, meu ceticismo ao ‘dogma central’ darwinista não é baseado em relatos da criação de textos sagrados. Foi a séria e conflituosa consideração do debate que ocorre intramuros e nas publicações científicas há muitos anos sobre a insuficiência epistêmica da teoria geral da evolução. Eu fui ateu marxista-leninista. Hoje, não tenho mais fé cega no ateísmo. Não creio mais na interpretação literal dos dogmas de Darwin aceitos ‘a priori’ e defendidos ideologicamente com unhas e dentes pela Nomenklatura científica. A Ciência me deu esta convicção. Aprendi na universidade: quando uma teoria científica não é apoiada pelas evidências, ela deve ser revista ou simplesmente descartada. Sou pós-darwinista me antecipando à iminente e eminente ruptura paradigmática em biologia evolutiva. Chegou a hora de dizer adeus a Darwin. Mestre em História da Ciência – PUC-SP. CV Plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/6602620537249723