Do laboratório à clínica

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

8/2/2010

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Durante duas semanas em abril, 100 pós-graduandos, pós-doutorandos e jovens pesquisadores terão a oportunidade de interagir e aprender com alguns dos principais especialistas do mundo em medicina translacional – ramo da pesquisa médica que procura conectar diretamente a investigação científica ao tratamento dos pacientes.


Hospital A.C. Camargo realizará, em abril, com apoio da FAPESP, a primeira edição da Escola Avançada de Ciência Translacional, que selecionará 100 estudantes para interagir com principais especialistas do mundo em pesquisas médicas (Foto: Hospital AC Camargo)

Cerca de 40 professores de vários países discutirão, sob a perspectiva da medicina translacional, temas como genômica, desenvolvimento de drogas, imunologia, neurociências e câncer na 1st São Paulo School of Translational Science (1ª Escola São Paulo de Ciência Translacional), que será realizada pelo Hospital A.C. Camargo entre os dias 19 e 30 de abril de 2010. As inscrições podem ser feitas pela internet até o dia 7 de março. Poderão inscrever-se pós-graduandos e pós-doutorandos de todo o Brasil e também do exterior.

O curso será o primeiro evento organizado dentro da Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), modalidade de fomento lançada pela FAPESP em outubro de 2009 que já selecionou seis propostas, incluindo a do Hospital A.C. Camargo, que é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP.

O objetivo da ESPCA – opção inserida em Auxílio à Pesquisa – Organização de Reunião (ou Evento) Científica – é criar oportunidades para que cientistas de São Paulo organizem cursos com a participação de especialistas internacionais e que tragam ao Estado jovens estudantes ou pós-doutores de outros países e regiões, possibilitando a interação com estudantes e pesquisadores locais e o debate temas avançados da ciência.

Os conferencistas convidados são provenientes de mais de 20 das principais universidades dos Estados Unidos, Canadá, França, Itália, Suécia, Portugal, Argentina e Brasil. “Entre os alunos, também haverá interação internacional, pois nosso objetivo é selecionar 50 participantes brasileiros e 50 estrangeiros”, disse o coordenador do evento, Emmanuel Dias Neto, pesquisador do Centro de Pesquisas do Hospital A.C. Camargo, à Agência FAPESP.

Um dos principais objetivos da iniciativa é formar um fórum capaz de promover avanços na colaboração científica entre grupos internacionais. “Essa interação é fundamental para a busca de um salto qualitativo nas nossas pesquisas, isso em todo o Brasil”, disse.

Os estudantes participantes receberão bolsas e auxílio para transporte, hospedagem e alimentação. Além disso, o curso valerá créditos validados para instituições reconhecidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“O Hospital A.C. Camargo é o único hospita privado do país que poderia realizar essa Escola, pois sua pós-graduação tem nota 7 da Capes. Isso possibilitará que os créditos sejam aceitos por todos os outros cursos de pós-graduação em que estejam matriculados os participantes”, explicou Dias Neto. O curso de 96 horas deverá render entre 10 e 12 créditos para os participantes.

O envolvimento do corpo clínico do hospital com a pesquisa também facilitou a realização do curso. “Como estamos em um hospital, não podemos perder de vista o fato de que boa parte da ciência básica pode ser aplicada para avanços na saúde humana. E a ciência translacional consiste exatamente em aproximar a ciência básica da aplicação clínica. Por isso, não tivemos dificuldades em trazer grandes nomes internacionais da ciência translacional mundial”, afirmou.

Os palestrantes, cuja diversidade é bastante ampla, abordarão temas atuais. Um deles, por exemplo, é Radoje Drmanac, da empresa Complete Genomics, sediada na Califórnia, Estados Unidos, que publicou artigo na primeira edição deste ano da revista Science sobre um processo pioneiro em que realizou o sequenciamento completo do genoma humano por US$ 4 mil – o primeiro sequenciamento do genoma humano custou cerca de US$ 15 bilhões.

“Ele falará sobre o uso da genômica como ferramenta para o tratamento personalizado dos pacientes, de acordo com suas alterações genéticas específicas. E comentará o projeto que deverá sequenciar um milhão de genomas e que foi possibilitado graças à queda do preço dos processos de sequenciamento”, contou Dias Neto.

Temática variada

Vários cientistas falarão sobre o desenvolvimento de drogas. Entre eles, dois pesquisadores do Centro de Câncer M.D. Anderson, do Texas (Estados Unidos) – os brasileiros Renata Pasqualini e Wadih Arap – falarão sobre seus achados.

“As pesquisas deles resultaram no desenvolvimento de drogas para câncer de próstata que hoje estão em testes clínicos. Falarão também de outra droga, produzida com outra molécula, mas que utiliza os mesmos princípios, que será usada no combate à obesidade”, disse Dias Neto.

Também na linha de pesquisas sobre obesidade, Randy Seeley, do Instituto Nacional de Pesquisas do Genoma Humano, dos Estados Unidos, falará do tema sob o ponto de vista do sistema nervoso. “Ele estuda como o sistema gastrointestinal está conectado com o sistema nervoso e como isso afeta a ocorrência de diabetes e obesidade”, explicou.

Na área de câncer, Carlo Crocce, da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, será um dos destaques. “É um cientista eminente que tem mais de 800 artigos publicados. Ele falará aobre as alterações estruturais do genoma envolvidas com a leucemia. E tratará também de moléculas denominadas micro-RNAs que têm papel fundamental no controle de diversas doenças”, disse Dias Neto.

Uma tarde inteira, pelo menos, será dedicada à discussão das alterações estruturais do genoma. “Vários pesquisadores falarão, ainda, sobre o controle de metástase, multiplicação celular, adesão celular e antígenos tumorais. São temas muito importantes para a elaboração de diagnósticos e, eventualmente, de novos tratamentos para o câncer”, indicou.

Embora as pesquisas no Hospital A.C. Camargo tenham foco no câncer, o curso abordará uma gama mais ampla de temas. Dois dias inteiros, por exemplo, serão dedicados à discussão de temas relacionados à neurociência que, segundo Dias Neto, é um tema importante no qual o Brasil tem grupos muito fortes.

“Partimos do conceito, que tem se fortalecido cada vez mais, de que o indivíduo é um sistema complexo de interações. Assim, muitas vezes determinada molécula tem mais de uma atividade. É o caso do príon, que regula tanto processos relacionados ao câncer como à neurociência”, explicou.

1st São Paulo School of Translational Science: www.schoolscienceaccamargo.org.br