A sexualização da heresia

quarta-feira, julho 01, 2009

O Projeto de Lei da Igualdade [Equality Bill], que ora tramita no Parlamento, é a mais recente e potencialmente a mais opressiva tentativa de impor atitudes politicamente aceitáveis e excluir qualquer outra que colida com esses critérios. Uma vez que as atitudes que estão sendo impostas constituem uma agenda ideológica (cujo objetivo é destruir os princípios éticos fundamentais da Grã-Bretanha e substituí-los por valores niilistas e por um estilo de vida de discussão infindável e disputa constante), elas representam um ataque direto à moralidade judaico-cristã que sustenta a sociedade britânica.




Vice-ministra Maria Eagle, principal defensora do autoritarismo pró-gay na Inglaterra



A mais nevrálgica dessas questões são os direitos gays. Isto porque a tolerância ao homossexualismo que uma sociedade liberal deveria demonstrar de maneira adequada há muito foi sequestrada por uma agenda que tem por objetivo a destruição total da idéia mesma de qualquer padrão normativo da sexualidade – e assim o faz ao rotulá-la de “preconceito”. A verdadeira posição liberal, a de que é certo e justo tolerar o comportamento que se desvia da norma desde que tal comportamento não prejudique ninguém mais, é considerada altamente preconceituosa com base no argumento de que a homossexualidade não é um “desvio”, mas sim normal. Deste modo, a “normalidade” é interpretada como sendo incoerente e absurda e, portanto, precisa ser destruída completamente. Logo, a agenda não é de tolerância liberal1, mas de coerção iliberal contra os valores morais em voga, com base no argumento de que a simples idéia de haver quaisquer princípios morais é uma expressão de fanatismo e intolerância. Assim, qualquer um que se manifeste contra os direitos gays é imediatamente difamado como “homofóbico” e tratado como um pária social e profissional.
A maioria das pessoas foi intimidada até o silêncio sob este ataque poderoso. “A sociedade mudou – acostume-se” é a mensagem persistente que poucos ousam contradizer. Esse certamente é o lema dos Tory Cameroons.2

Mas quem está em profunda dificuldade com tudo isso são os grupos religiosos cuja fé os impede de aceitar essas novas antinormas morais e sexuais.

Há crescente preocupação de que os cristãos em particular estejam sendo injustamente atingidos por leis discriminatórias, em função de certo número de casos notórios envolvendo cristãos em dificuldades por defenderem a sua fé – membros de juntas de adoção tiveram de renunciar porque se opunham à adoção por gays, por exemplo, ou a enfermeira que foi suspensa (apesar de subsequentemente reinstituída, depois de protestos) porque se ofereceu a rezar por um paciente.

Até agora, porém, eles conseguiram – a despeito de considerável oposição de dentro do governo – assegurar isenções de certas leis de “igualdade” com base em objeções de consciência, de modo a não serem obrigados a ir contra seus princípios religiosos. Sob a legislação de “igualdades” existente, quaisquer papéis considerados necessários “aos propósitos de uma religião organizada” têm uma isenção. Mas, recentemente, a vice-ministra das Igualdades, Maria Eagle, disse que de acordo com o novo Projeto de Lei de Igualdade, os grupos religiosos serão proibidos de rejeitar gays que busquem empregos em suas instituições com base na sexualidade desses. Assim, igrejas, mesquitas e sinagogas serão forçadas a empregar, por exemplo, gays para trabalhar junto aos jovens. A única exceção será no emprego de padres ou outros ministros religiosos, quando os gays poderão ser rejeitados – e até mesmo essa concessão não parece muito firme. Conforme relatado pelo The Telegraph:

Líderes religiosos tinham esperança de fazer pressão pelas isenções da Lei da Igualdade, mas Maria Eagle, a vice-ministra, agora indicou que a lei cobrirá quase todos os empregados das igrejas. Ela declarou aos delegados da conferência sobre Fé, Homofobia, Transfobia & Direitos Humanos, em Londres: “As circunstâncias nas quais as instituições religiosas poderão praticar qualquer coisa diferente da total igualdade são poucas e a longos intervalos”.

E ela foi mais adiante: “Enquanto o Estado não interviria em questões estritamente rituais ou doutrinais nesses grupos religiosos, essas comunidades não podem alegar que tudo que fazem está fora do escopo da lei de antidiscriminação. Os membros de grupos de fé religiosa têm um papel a desempenhar em suas comunidades quanto a favorecer a maior aceitação de LGBT 3, mas, nesse meio tempo, o Estado tem o dever de proteger as pessoas contra tratamento injusto”.

Mas e quanto ao tratamento injusto dispensado aos cristãos tradicionais e a outros grupos religiosos? A doutrina da igualdade significa que eles não têm nenhum direito de manter sua crença de que certos tipos de comportamento sexual são errados. Suas crenças são simplesmente sobrepujadas pelos direitos gays, os quais não lhes permitem absolutamente nenhum espaço para manter suas crenças religiosas. Isto não é progressista. É totalitário. Isto foi efetivamente reconhecido por ninguém menos que o sumo sacerdote do liberalismo judicial, Professor Ronald Dworkin. Num artigo para a revista Prospect, em 2007, ele fez considerações a respeito da questão específica da adoção por gays:

“Uma sociedade liberal se vê diante de uma decisão difícil quando alguns de seus membros afirmam que as suas convicções religiosas não lhes permitem obedecer a uma lei que a maioria considera necessária a fim de prevenir injustiças. Em tais casos, há um aparente conflito entre as reivindicações de justiça e o respeito pela liberdade de os cidadãos seguirem suas próprias convicções em matéria de fé, e é necessário cuidado para harmonizar os dois princípios liberais em questão. Por exemplo, as sociedades liberais eximiram de lutar na frente de batalha os pacifistas por objeção de consciência, a despeito do importante princípio de que o perigo deveria ser igualmente compartilhado entre os cidadãos capazes de lutar”.

[...] “Isto significa respeito por convicções que são assuntos de preocupação central entre as tradições religiosas, porque essas convicções tocam o sentido da vida humana, geração e morte. O fanatismo não está entre essas questões, mas guerra, sexualidade e procriação estão. É por esta razão que é errado o Estado proibir o aborto precoce, e também está errado ao não permitir e sancionar o casamento gay. Um governo que limita a liberdade dessa maneira toma posição em questões religiosas. É claro que o Estado não pode conceder às pessoas licença plena, mesmo em assuntos de dimensão religiosa: o Estado deve regular o casamento e adoção com a preocupação por aqueles que de outra forma seriam prejudicados. Mas o Estado deveria tentar acomodar convicções religiosas profundas e legítimas quando a acomodação não prejudicasse de maneira significativa a política do governo e nem causasse dano significativo a ninguém”. [Os destaques em negrito são da colunista].

Um dos princípios chave – possivelmente o princípio chave – de uma sociedade liberal é aquele que dá a grupos religiosos a liberdade de praticar suas religiões e de viver segundo seus preceitos. Impedi-los de assim proceder é profundamente iliberal e opressivo – e não se torna menos opressivo pelo fato de que vozes “progressistas” dentro das próprias igrejas considerem tais preceitos como sendo “homofóbicos”. Isto é meramente a sexualização da heresia. E o que resulta da heresia, quer religiosa ou secular, é a perseguição.

A perseguição precisa de um agente. E tal ferramenta de opressão foi devidamente criada na forma de uma comissão ao estilo orwelliano, a Comissão de Igualdade & Direitos Humanos, cujo papel é erradicar tais heresias. Apropriadamente, o Stonewall, grupo de pressão pelos direitos gays cuja agenda de desnormalização foi legalizada virtualmente em sua totalidade por este governo Trabalhista, tem nessa comissão não apenas um, mas dois comissários. E a despeito desse flagrante desequilíbrio num ente regulatório, ativistas gays reclamaram indignadamente da indicação de um cristão evangélico simbólico para a comissão, Joel Edwards – ainda que, por tudo que se sabe, ele seja submisso e conformista em sua abordagem – a tal ponto que na mesma conferência sobre Fé, Homofobia, Transfobia & Direitos Humanos em que Maria Eagle fez sua declaração, o presidente da comissão, Trevor Phillips, chegou a expressar contrição pela indicação de Edwards:

Trevor Phillips, Presidente da Comissão de Igualdade & Direitos Humanos, falou com franqueza acerca de sua posição em face das controvérsias surgidas da indicação do Rev. Joel Edwards, ex-Secretário Geral da Aliança Evangélica, para o cargo de comissário para assuntos da fé. Respondendo a duros questionamentos, ele disse à conferência que, se à época da indicação soubesse o que soube agora, ou seja, o quão profundamente as pessoas tinham sido ofendidas e indispostas por essa indicação, talvez tivesse havido outro resultado.
Realmente, como diz a piada, o que antes era proibido, agora se tornou compulsório. Houve tempo em que a prática homossexual era proscrita. Agora, parece que a prática cristã está para ter o mesmo destino. Esta é uma questão de direitos civis fundamentais. Portanto, onde estão os defensores dos valores progressistas nesta questão? Onde estão os advogados de direitos humanos? Onde está a voz da Liberty, a poderosa ONG de direitos humanos britânica? E onde estão os supostos defensores dos valores britânicos e ocidentais essenciais? Onde (não riam) está o Partido Conservador?

Marchando nas fileiras da inquisição secular, cada um deles.

Publicado originalmente no Spectator.co.uk/melaniephillips em 25/05/2009.

Tradução: Henrique Paul Dmyterko

1NT: O termo liberal que é usado neste artigo tem o sentido que britânicos, europeus em geral e também os brasileiros lhe atribuem. É praticamente o oposto do liberal americano.

2 NT: A “ala jovem” do Partido Conservador, assim designada em função do nome seu líder e mentor, David Cameron. Esses jovens “conservadores” abraçam idéias ambientalistas, a liberdade, fraternidade, etc.

3 NT: Lésbicas, gays, bissexuais e transexuais.

Fonte.